

A retórica das imagens
Como ver um quadro de Nicolas Poussin
Sublime Poussin
Louis Marin
Tradução: Mary Amazonas Leite de Barros
Edusp (Tel. 0/xx/11/3091-4008)
216 págs., R$ 55,00
VICTOR KNOLL
Estudos do historiador da arte Louis Marin sobre Nicolas Poussin -tendo a representação do sublime como referência- foram reunidos em volume, em publicação póstuma, por seus colaboradores. A coletânea, editada em duas partes, explora na primeira as questões da leitura e da descrição das imagens que constituem a pintura e, na segunda, "os quadros de Poussin (são tomados) como elaboração, aplicação e exposição de uma teoria da pintura". Em Poussin dá-se uma conjugação da reflexão teórica sobre a pintura -vazada em suas cartas- e a prática artística.
Os editores tiveram o cuidado de advertir o leitor de que a coletânea publicada não corresponde ao plano que Marin elaborara para o "Sublime Poussin" e cujo sumário está em apêndice. O confronto entre o sumário e a coletânea publicada mostra que outros estudos deveriam se juntar aos que aqui estão e estes deveriam ainda sofrer algum desenvolvimento. Mas o que temos é já estupendo.
O ensaio que abre a coletânea faz referência a uma carta de Poussin enviada a Chantelou -mecenas e seu cliente-, na qual afirma que o espectador de um quadro deve ser um leitor. Para Marin a exigência de leitura de um quadro feita por Poussin se impõe como um princípio e governa a composição de sua obra pictórica. Temos aqui um indício do alcance da conexão entre criação artística e reflexão teórica na postura assumida por Poussin diante da obra de arte e o trabalho artístico.
Por essa via, conforme observa Luciano Migliaccio no prefácio à edição que temos em mãos, compreende-se que a análise da exigência poussiniana "representa um ponto de chegada da reflexão de Marin e, ao mesmo tempo, uma introdução esclarecedora de seu método de trabalho".
Certamente, os editores da coletânea colocaram estrategicamente esse texto em primeiro lugar. Eis aí a proposta: ler um quadro como se lê uma carta, um poema, um livro. Como há retórica na escrita, há também retórica nas imagens. Em um quadro, o espectador -agora leitor- deve reconhecer a sintaxe das imagens. O quadro é um discurso -termo que, portanto, não se aplica apenas às letras- feito de imagens. Poussin atribui um mesmo valor semântico à palavra e à imagem. Aí está o ponto de arranque das análises de Marin.
O tratamento dessa relação entre texto e figuração obrigou Marin a procurar subsídios para seu trabalho em diversas disciplinas e assim desloca-se da antropologia à história da arte, da história geral à semiologia.
A metáfora do maná
Poussin procura orientar Chantelou na leitura de "A Colheita do Maná", que para ele havia pintado. Servindo-se das indicações da carta, Marin procura mostrar a articulação das diversas figuras que compõem essa pintura: o lugar do espectador no próprio quadro e a figura da mulher que representa ou se põe como metáfora do maná -numa linguagem cristã, da caridade.
Trata-se de reconhecer que, quando contemplamos um quadro, atribuímos às imagens que o constituem em um todo unitário diferentes valores de significação. Assim, cada figura ocupa um determinado lugar semântico na composição geral da pintura -ou no dizer do quadro. Tendo em vista o valor relativo de significação que cada figura ocupa na economia geral da figuração, falamos então -com Poussin- que o quadro importa em uma retórica das imagens -acrescente-se, guiada pela razão.
O caráter retórico da pintura de Poussin é também atestado pelo fato de seus temas serem colhidos em sua grande maioria na Bíblia, na mitologia grega ou em poemas como "Jerusalém Libertada", de Tasso; isto é, seus assuntos são cenas de um desenvolvimento dramático -um momento privilegiado de uma narrativa, o qual resume o seu sentido. Poussin vai buscar os seus "motivos", quase sempre, no literário.
Assim, Marin nos ensina que a pintura do mestre deve ser vista -ou lida- como um processo retórico e cuja decifração -ou leitura- está à mão do espectador, porque se trata de um conjunto de imagens articuladas segundo valores culturais estratificados. Compreende-se, portanto, o que leva Marin a lidar, na interpretação da arte, não só com dados próprios da história artística, indo em busca de recursos analíticos nos territórios da semiologia, da antropologia, da história das religiões e de suas codificações doutrinárias; enfim, de maneira difusa, no que poderíamos chamar por história da cultura. Aqui o termo "cultura" ganha o mesmo peso que Jacob Burckhardt lhe atribuiu em sua obra pioneira. Há um certo consenso de que a tradução do termo "Kultur", no caso, melhor se realiza pela palavra "civilização".
Além disso, há que reconhecer, em particular, a mútua dependência entre teoria e história da arte. A relação entre a prática artística e a reflexão teórica tem um importante atalho: Poussin conferiu à figuração originalmente moldada pela renascença o caráter de objeto de razão. Em outra carta enviada a Chantelou, de 24/ 11/1647, escreve: "O bem julgar é muito difícil, se não se tem nessa arte (a pintura) grande teoria e prática juntas. Não apenas vossos apetites devem julgar, mas a razão". Importa à pintura manifestar a mesma racionalidade que Boileau reclamava para o poema.
Aliás, nessa mesma carta Poussin esboça uma aproximação -a rigor, um paralelo- entre a pintura e a poesia. Da mesma maneira que "os bons poetas (trata-se de Virgílio) usaram de uma grande diligência e de um maravilhoso artifício para acomodar aos versos as palavras e dispor os pés segundo a conveniência do falar" (a palavra e o soar corretos para a dor ou para a alegria), assim também o pintor deve recorrer ao "modo" adequado para que o nexo das imagens tenha a "força de induzir a alma dos espectadores a diversas paixões", o pavor, se tratar-se de uma cena de guerra, a suavidade e a doçura, se o tema envolver dança ou festa. Palavra e imagem pintada, retórica e arte.
Parece que Poussin nos quer dizer que a pintura não é apenas uma ilustração, mas, muito além, em uma postura já ilustrada, uma manifestação da razão. Por outros caminhos, na Holanda e em Flandres -conforme Svetlana Alpers já nos mostrou em seu livro "A Arte de Descrever" (Edusp)- a imagem desempenhou um papel decisivo e fundamental na coesão da vida social, e a pintura se constituiu em um rico momento da vida do espírito, pois desempenhava o papel de uma espécie de espelho das realizações e dos valores daqueles dois países. A obra de Poussin, ao lado de Vouet e Lebrun, é também a consolidação na esfera do visível de uma tradição cuja referência em teoria da arte é Boileau e, em um cenário mais amplo, Descartes.
A exigência de racionalidade na elaboração da representação pictórica, no alvorecer das "vanguardas", ecoa na obra de Cézanne que, a título de regra, dizia: "Imitar Poussin, a partir da natureza". Frase rica, cheia de diversos sentidos e muitos subentendidos disseminados ao longo da história das teorias estéticas.
"Lede a história e o quadro." Essa breve frase, pinçada da carta de Poussin a Chantelou de 28/04/ 1639, é um resumo de como o artista concebia a pintura e, ao mesmo tempo, nela temos a inspiração das análises dos diversos aspectos da obra do mestre racionalista neste "Sublime Poussin".
Victor Knoll é professor de estética na USP.