

A razão e o demoníaco
Algumas décadas de pintura francesa
De David a Delacroix
Walter Friedlander
Tradução: Luciano Vieira Machado
Cosac & Naify (Tel. 0/xx/11/3218-1444)
208 págs., R$ 30,00
JEAN GALARD
Este é antes um livro que se lê de uma só vez do que um livro a se consultar de tempos em tempos, trecho por trecho, segundo as necessidades de uma pesquisa. Ele é desprovido de qualquer nota, de qualquer referência bibliográfica, não menciona o nome de nenhum historiador da arte.
Para ter a audácia de tal despojamento, é preciso que o autor seja muito desenvolto ou muito erudito. Walter Friedlander é muito erudito. Ele deu provas de sua exigente erudição em várias obras, das quais a mais impressionante, cientificamente, é o catálogo razoado dos desenhos de Poussin, publicado com Anthony Blunt, em cinco volumes, a partir de 1939 (Friedlander morreu em 1966, sem ter visto o fim desse empreendimento). Para o livro que consagra, em 1930, às principais tendências da pintura francesa de David a Delacroix, ele escolhe a forma da narrativa, sem aparato crítico. Seu prefácio à edição em inglês, de 1952, indica que este livro era concebido para situar-se numa série de manuais destinados ao uso escolar e universitário.
Um "manual"? Entenda-se o termo em seu sentido primeiro. Trata-se menos de um compêndio, de um resumo, que de um livro que se pode literalmente ter em mãos, à diferença da maioria das obras de história da arte, dos catálogos de exposição em particular, que requerem, para ser manejados, um sério treinamento muscular e uma sólida superfície de apoio.
Acrescentemos que a edição brasileira, muito bem paginada, oferece a vantagem de apresentar, ao correr das páginas, as imagens das obras que o texto evoca, enquanto a edição de 1952, em inglês, obrigava o leitor a se reportar continuamente às 60 páginas finais, onde as ilustrações estavam agrupadas.
"De David a Delacroix", tal é também o título de uma exposição que teve lugar em Paris em 1974-1975. Na introdução ao catálogo, Pierre Rosenberg lembrava que esse título era emprestado a "uma obra famosa de Walter Friedlander" e explicava as razões do subtítulo da exposição ("A Pintura Francesa de 1774 a 1830"): 1774 é a data da morte de Luís 15 e do início do reino de Luís 16, 1830 é a da queda de Carlos 10º; entre essas duas datas, a França foi sacudida pelos acontecimentos políticos mais importantes de sua história. Em 1774, David tem 26 anos. Em 1830, Delacroix tem 32 anos, Ingres tem 50 e produziu suas principais obras-primas.
Numa sequência de seis capítulos, Friedlander escreve uma história desse período fecundo. Cada um traz, como título, o nome de uma categoria estilística ou de uma "tendência", assim como o de um ou vários artistas que seriam sua encarnação ou ilustração. Donde um balanceamento constante entre análises de casos singulares e considerações conceituais que procuram definir famílias, pólos, correntes. As análises de obras, malgrado sua brevidade, são sensíveis e sutis. Elas não hesitam acompanhar-se de juízos de valor, às vezes severos, mesmo a propósito de quadros célebres de artistas dos quais em outra parte Friedlander faz o elogio entusiasta: ele critica, por exemplo, a composição de "O Massacre de Quios" ou a de "A Entrada das Cruzadas em Constantinopla", de Delacroix.
Cada pintor é objeto de uma avaliação pessoal. Mas, ao mesmo tempo, a intenção do livro é situar essas diversas personalidades umas em relação às outras. Assim, o gênio pessoal de Delacroix, ainda que "sui generis", consiste no entanto, segundo Friedlander, em "desenvolver uma tendência barroca já existente".
Dualismo inadequado
Friedlander não se refere explicitamente, neste livro, à oposição entre clássico e barroco, que Wölfflin estabelecera tão claramente, 15 anos antes, em seus "Princípios Fundamentais da História da Arte", obra que Friedlander, é óbvio, conhecia. Ele procura em primeiro lugar afastar a oposição mais comumente usada para o período que estuda: a do classicismo e do romantismo. Esse dualismo lhe parece inadequado e seu livro chega efetivamente a propor categorias bem mais refinadas, em todo caso mais inesperadas.
Entretanto é surpreendente ver retornar, ao longo do livro, a tentação de um antagonismo binário. Primeiro a oposição entre duas correntes que se manifestariam na pintura francesa depois do século 16: a racional e a irracional. Gostaríamos de descobrir, nos detalhes, como as obras se repartem segundo esses dois pólos. Na realidade, Friedlander logo faz apelo a dualismos bastante diferentes. Lembra a alternância, na tradição francesa, do moralismo e da frivolidade, da arte virtuosa e da arte sensual e decorativa, a alternância ou a simultaneidade do "grande gosto" e da "pequena maneira", a querela entre os partidários de Poussin e os de Rubens, o combate entre os adeptos da linha e os militantes da cor...
Essa série de oposições, aumentada pelo recurso à noção de barroco e enriquecida pelo reaparecimento oportuno (apesar da repugnância inicial de nosso autor) do par classicismo e romantismo, permite uma rica combinatória. "De David a Delacroix" inclui assim tendências como o "protobarroco", o "ultraclassicista", o "alto barroco romântico" de Delacroix , o "classicismo romântico-arcaico" de Ingres...
Essa rede de correntes que se juntam ou se ramificam, para formar aqui estreitos riachos, ali poderosas correntes, poderia compor um mapa bastante abstrato. Esse esquema poderia se superpor às obras que supostamente faz compreender, a ponto de mascará-las. Tal não é o caso.
Friedlander gosta do período de que fala. Julga-o "extraordinário" e o descreve com simpatia. Os decênios que decorrem entre a maturidade de David e a de Delacroix são particularmente animados, ao mesmo tempo artística, política e intelectualmente. O livro de Friedlander restitui bem esse ambiente feito de audácias, desafios, conflitos ideológicos, correntes novas, inversões de tendências. "O Juramento dos Horácios", de 1784, é um manifesto ruidoso, no qual não se podem dissociar os componentes artísticos, morais e políticos. O "classicismo ético" desse quadro "assumiu um caráter eminentemente político e, juntamente com a literatura e a filosofia moralizantes, preparou o caminho para a Revolução".
O aparato conceitual que Friedlander convoca não é artificialmente chapado sobre as obras. Estas, naquela época, eram elas próprias inteiramente impregnadas de idéias militantes. Os contemporâneos eram confrontados diretamente a escolhas radicalmente divergentes sobre todos os planos, quando viam, por exemplo, sobre os cimácios do mesmo "Salão de 1824", "O Voto de Luís 13", de Ingres, e "O Massacre de Quios", de Delacroix.
A narrativa arrebatadora que Friedlander constrói de um período tumultuoso, indicando claramente os antagonismos maiores que a caracterizam, permanece atenta à complexidade dos casos individuais. Em Gros, por exemplo, que acentua a vertente colorista de seu mestre David e que introduz em pintura o herói moderno, Friedlander realça a contradição que há entre suas obras, tipicamente românticas, e seu vínculo aos ideais do academismo davidiano.
Construções provisórias
Friedlander tem o mérito de propor suas categorias estilísticas e suas diversas "correntes" por aquilo que são: meios de inserir inteligibilidade nos fatos e nas obras. Não entidades definitivas que existiriam "per se", mas construções provisórias destinadas a estabelecer classificações tão finas quanto possível. Podemos nos irritar com esse hábito que tem a história da arte de proceder por classificações estilísticas e por filiações. Mas existe outro meio de fazer "compreender" um período? Friedlander, ao menos, se exprime explicitamente sobre os motivos didáticos de suas construções: "Termos como gótico, barroco, classicista etc. são, em si mesmos, um tanto ambíguos e imprecisos, mas para efeito de delimitação e de síntese é difícil suprimi-los".
Enfim, este livro é hoje excitante pela estranha importância que dá, desde as primeiras linhas de sua introdução, à oposição entre uma corrente racional e uma corrente irracional. Não se vê muito bem em que o "amoralismo", a "frivolidade", o "franco erotismo" dependeriam especialmente do irracional. E, na sequência do livro, não se vê bem a quais obras se aplica adequadamente tal categoria. A pintura rubenista seria "irracional" pelo simples fato de que se opõe tradicionalmente ao poussinismo, considerado "racional"? A pintura de Ingres pode ser alinhada sob o estandarte do racional, sob pretexto de que ela dá preeminência à linha, quando se pensa no delírio erótico de "O Banho Turco" e se conhecem as análises conduzidas por Michel Thévoz em seu livro "O Academismo e Seus Fantasmas" (1980)?
Mas Friedlander nota com justeza o que há de "orgiástico" em "A Morte de Sardanapalo". Ele sente nesse quadro "um pandemônio de paixões". Nas obras animalistas de Delacroix, ele vê planar "o fulgor de uma aventura selvagem e onírica". Eis-nos reenviados a Goethe que, certo tempo, opôs ao racionalismo aquilo que ele chamava o demoníaco: "O demoníaco é aquilo que nossa razão se recusa a resolver". Friedlander, na sua conclusão, estima que Ingres está, bem mais que Delacroix, em afinidade com o caráter francês. Em 1930, Walter Friedlander, de sua parte, está ainda bastante próximo do hábito que os alemães tinham de opor as potências do irracional às das Luzes.
Jean Galard é diretor do serviço cultural do Museu do Louvre e autor, entre outros livros, de "A Beleza do Gesto" (Edusp).
Tradução de Franklin de Mattos.