

A série "Crônicas em Geral" inicia a publicação da obra completa em prosa de Cecília Meireles, projetada para seis volumes. As outras séries anunciadas são as seguintes: "Crônicas de Viagens", "Tipos Humanos e Personalidades", "Educação e Folclore", "Entrevistas, Conferências e Ensaios Gerais" e "Vária". De acordo com Leodegário de Azevedo Filho, responsável pelo planejamento editorial da obra, todo o material a ser reunido "foi encontrado nos acervos de Cecília Meireles e organizado por seus herdeiros". Das 102 crônicas recolhidas nesse primeiro tomo, apenas 2 foram anteriormente publicadas em livro, o que dá uma medida da dimensão do projeto, que, no conjunto, certamente irá revitalizar a presença intelectual de Cecília Meireles, além de contribuir para a reavaliação de sua própria obra poética, em termos mais positivos.
Antonio Candido referiu-se certa vez à ótima qualidade da prosa dos nossos poetas modernos; a propósito, caberia recordar aqui a enorme produção, especificamente de crônicas, por parte de poetas brasileiros posteriores ao modernismo. Os exemplos são muitos: além de Cecília Meireles, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Paulo Mendes Campos e, em menor medida, Murilo Mendes (sobretudo com as crônicas sobre música) e Décio Pignatari (com as crônicas sobre futebol), entre outros.
O recurso ao gênero deve ser pensado em termos amplos: não apenas a prática de uma expressão distendida em relação à linguagem poética -uma espécie de remanso para o escritor, mas também um modo de ganhar algum dinheiro fazendo literatura. Além do mais, ao estar quase sempre associada ao jornal (e, em escala menor, ao rádio), a crônica proporcionava uma audiência muito maior a que estavam acostumados como poetas e lhes permitia ainda, pela referencialidade intrínseca, uma atitude mais imediatamente permeável aos problemas do tempo. Assim, a aura de poetas consagrados e muitas vezes difíceis transferia-se para uma linguagem informal e despretensiosa, assim como a rarefação do assunto cedia ao cotidiano mais palpável, de maneira que o leitor exigente lia o imediato esperando encontrar algo extraordinário, e o público menos especializado podia ter acesso a escritores para iniciados, a "poetas para poetas". É possível afirmar que a crônica pôde conviver, ao menos algumas vezes, sem grandes fraturas, com a própria poesia. Sobretudo, considerando que a valorização do coloquial e da concretude da experiência foram propostas essenciais surgidas com a Semana de 22.
O caso de Cecília Meireles, de todos os acima mencionados, é certamente um dos mais interessantes. Pois a imagem que ainda persiste de sua poesia é a da abstração evanescente e da forma frágil, drasticamente separada da "prosa do mundo". No entanto, ela foi uma das cronistas mais militantes, desde os escritos sobre educação no início dos anos 30, e essa produção ininterrupta não deve ser lida como algo alheio à sua obra poética. Seria possível propor, incentivados por leituras recentes de sua obra, como a de Valéria Lamego por exemplo, a problematização daquele retrato de poeta a partir das leituras das crônicas presentes no volume em questão. O resultado pode surpreender, pois a "mundanidade", congenial à crônica, só aparentemente está ausente da obra poética da autora. Já não convencem as propostas de alguns leitores, naturalmente conservadores, que recomendavam a obra de Cecília Meireles como antídoto ao que eles consideravam excessos e/ou vulgaridades do modernismo. Como acontece não poucas vezes, o equívoco passou por verdade, de modo que muitos já nem se deram ao trabalho de ler, ou então simplesmente leram "contra". O momento parece ser favorável à poesia de Cecília Meireles, no sentido de uma leitura renovada.
A OBRA Obra em Prosa - Vol. 1 Cecília Meirelles Nova Fronteira (tel.021/537-8770) 370 págs. R$ 30,00 |
Em relação ao material propriamente dito do livro, parece haver duas maneiras mais ricas de apreensão. A primeira delas está sugerida pela fala de uma das crônicas: "A matéria avulsa, despretensiosa, que dá, no entanto, o retrato psicológico e social de cada época". Trata-se, portanto, de ler as crônicas como um repositório de temas e de preocupações que a escritora compartilhava com os seus contemporâneos, numa cumplicidade "despretensiosa", nascida das circunstâncias. As datas das crônicas tornam-se então decisivas. Muitas delas foram escritas durante a Segunda Guerra Mundial, cuja presença é percebida na observação do detalhe miúdo, como em "Boas Festas", de 1944: "Este ano, o meu lixeiro sofreu, como todos nós, a influência da guerra. Seus sentimentos de fraternidade nobremente se dilataram, abrangendo todo o gênero humano".
Uma segunda possibilidade de leitura é a de extrair das crônicas elementos da poética da autora, ou, pelo menos, identificar nelas as suas preocupações estéticas mais recorrentes. Assim, encontraremos uma defesa discreta, mas determinada, da arte moderna, sobretudo em relação à pintura (como nas crônicas sobre Portinari, Arpad Szenes ou sobre a pintura infantil); uma reflexão sobre "Os Dançarinos", que é dos melhores textos do livro; algumas declarações esparsas sobre a própria poesia. Igualmente importantes são os textos mais pessoais ou autobiográficos, quase sempre registros memorialistas da infância, que podem ser lidos como complementares à série "Olhinhos de Gato". Dos escritos desse teor, a "Conversa com as Crianças Mortas" (os dois irmãos e a irmã que Cecília Meireles nem chegou a conhecer) é tanto magistral quanto comovente.
Talvez a leitura mais produtiva, porém, seja a de estabelecer uma terceira via, que vinculasse a referencialidade e a contextualização obrigatórias da crônica às preocupações íntimas e estéticas da autora. Nesse caso, poderíamos acompanhar a constituição mais ou menos sistemática de um "certo modo de ver", que consiste em se desviar sempre do espetáculo saliente do mundo em direção às manifestações periféricas e negligenciadas, aspecto diretamente tematizado na crônica "Uns Óculos". Creio ser esse o que mais possibilidades oferece de aproximar crônica e poesia, em Cecília Meireles, já que em ambas pode ser observado o mesmo deslocamento do grandioso para o "menor".
Certamente, nem tudo será bom no livro, o que é um fato inevitável em um projeto abrangente como esse, principalmente em relação a um gênero em que o circunstancial é a matéria-prima. No entanto, a leitura dessas crônicas, não fosse pelo valor de muitas delas, pode representar uma mediação importante para vislumbrar um retrato mais complexo de Cecília Meireles.
Murilo Marcondes de Moura é professor de literatura brasileira na Universidade Federal de Minas Gerais e autor de "Murilo Mendes: a Poesia como Totalidade" (Edusp/ Giordano).