

A política de uma razão sociológica
FEDERICO NEIBURG
Existirá alguma coisa em comum entre o argumento a favor de uma forma de produção e percepção artística -por exemplo, a que se relaciona com "a arte pura" ou "a arte pela arte"-, a definição de uma forma "aceitável" de falar, e a consagração de uma teoria como "científica"? Para responder a essa pergunta, pode-se reconstruir o itinerário das preocupações que unem estes dois livros de Pierre Bourdieu, publicados originalmente com a diferença de uma década. Sua tradução simultânea para o português convida a uma reflexão sobre dois momentos da história das ciências sociais e da trajetória intelectual de um dos seus protagonistas mais dinâmicos e influentes.
"A Economia das Trocas Linguísticas", cujo original em francês foi publicado em 1982, com o título de "Ce que Parler Veut Dire", foi o último de uma série de livros (entre eles "La Distinction" e "Le Sens Pratique") dedicados ao confronto com o estruturalismo- a tradição intelectual até então dominante nas universidades, não só na França. Bourdieu rejeitava o postulado saussuriano que distinguia entre as dimensões interna e externa da linguagem -reservando a primeira à verdadeira ciência- em troca de uma sociologia da linguagem que superasse essa polaridade. Eram duas suas principais armas: de um lado, a teoria durkheimiana que impunha considerar a própria linguagem como "fato social"; de outro lado, uma filosofia da linguagem inspirada em Wittgenstein e, especialmente, uma teoria pragmática do significado tal como fora formulada, entre outros, por Austin, e que mostrava os "atos de fala" também como ações sociais.
A teoria do poder simbólico era o fio condutor utilizado por Bourdieu para se apropriar criticamente das duas tradições. Assim como Durkheim, Bourdieu mostrava a existência de relações entre "categorias de pensamento" e "categorias sociais", mas diferenciava-se deste por propor a compreensão dos processos por meio dos quais as fronteiras sociais e conceituais são construídas. Dessa maneira, em vez de mapear "sistemas de classificação", estudava "lutas de classificação", em que grupos de agentes sociais tentam definir os contornos e as formas de pensar o mundo onde existem. Sua discussão da teoria do ritual é coerente com essa "mudança de foco", especialmente sua intenção de substituir a noção de "rito de passagem" -pela qual se costumavam observar as mudanças experimentadas por indivíduos e grupos na vida social, conforme o exemplo mais típico do nascimento, maturidade e morte- pela noção de "rito de instituição", que ressalta a construção de fronteiras, o estabelecimento de limites entre "classes sociais" (no sentido de classes de coisas sociais, incluindo grupos de idade, de gênero, categorias jurídicas etc.).
Alguns excessos da retórica combativa de Bourdieu na época foram responsáveis pelas ambiguidades na sua leitura de Austin. De um lado, situou este autor equivocadamente como partidário de uma visão interna da linguagem, semelhante à dos seus inimigos estruturalistas; de outro lado, apresentou a sua própria teoria como um desdobramento da do filósofo de Oxford, propondo como objeto da sociologia o estudo das condições (sociais) que permitem "fazer coisas com palavras", o que pode ser lido como uma reflexão sobre o que o próprio Austin chamava "condições de felicidade" dos enunciados performativos, sempre externas à linguagem.
Recusando a oposição entre uma visão interna e uma visão externa da linguagem, Bourdieu rejeitava, mais profundamente, todas as formas dicotômicas de representar os dilemas das ciências sociais e, em especial, a oposição entre teoria e empiria. De fato, em "A Economia..." o leitor poderá encontrar uma série de ensaios nos quais a discussão teórica sempre se desenvolve por meio de argumentos empíricos. Em cada capítulo, Bourdieu estuda processos que sancionam a existência social de diversas categorias de produtos culturais e, simultaneamente, de seus produtores: num texto, a língua ao lado dos gramáticos e dos literatos; em outros, a ciência ao lado dos cientistas, a filosofia ao lado dos filósofos, a estética ao lado dos estetas, ou o marxismo ao lado dos marxistas. Todos são territórios nos quais Bourdieu mostra que as visões do mundo fazem parte do mundo que descrevem e que as lutas para impor uma língua, uma ciência, uma estética ou uma filosofia são constitutivas delas.
Se, na primeira parte de "A Economia..." -centrada no estudo da imposição de uma língua legítima, na relação entre a criação de "mercados linguísticos" e a constituição de Estados nacionais -evidenciava-se a importância que devia ter a dimensão histórica no seu modelo, é justamente o caráter eminentemente histórico que distingue "As Regras da Arte", livro originalmente publicado em 1992, e em que Bourdieu, até agora, mais claramente se apresenta como historiador.
O tema aqui é o da invenção paralela da "arte pela arte", de uma "estética pura" e de determinada figura de intelectual: o artista que não sendo nem puramente esteta nem puramente realista consegue afirmar sua própria existência pela valorização de uma forma boa de representar (com estilo) o medíocre ou o insignificante (o real). Manet em pintura e, especialmente, Baudelaire e Flaubert, em literatura, são as personagens principais de que se serve Bourdieu para formular uma verdadeira teoria das condições sociais da revolução cultural. Num contexto tão distante do uso estrutural ou "reprodutivista", categorias como habitus ou campo ganham uma nova densidade. A gênese social do habitus, ou da pulsão socialmente construída (categoria que aparece pela primeira vez nos escritos do autor), do artista independente dos poderes do Estado e do mercado é inseparável da gênese social de um campo intelectual relativamente autônomo desses poderes, constituído também por um público de artistas. A conjuntura particular que, na França, se seguiu à instalação do Segundo Império (1851) atua sobre as disposições de alguns indivíduos que integram uma geração "pessimista" e "desiludida com a política", levando-os a se refugiarem na arte, a criar a "arte pura". Mais do que um livro sobre a simples autonomização do campo intelectual, "As Regras..." tematizam as relações complexas entre o micromundo intelectual e o macromundo social que o contém.
Para construir uma sociologia da arte e da percepção estética, Bourdieu não só polemiza explicitamente com correntes e autores (entre eles, Sartre, Jakobson, Foucault, Heidegger e Gadamer, a escola de Praga e o formalismo russo), mas também demostra o processo pelo qual a "beleza pura" é socialmente construída junto com a teoria que justifica sua existência. Para Bourdieu não há contradição entre a sociologia da arte e o prazer estético; afirmar tal oposição é o argumento principal do mecanismo de distinção social que reserva a experiência estética para os escolhidos (como a revelação religiosa ou a genialidade filosófica).
Sua demonstração maior é uma confissão de Mallarmé, numa passagem em que o poeta decide não realizar o "desmonte ímpio da ficção" e não revelar (como poderia ter feito) os mecanismos que regem a atividade criadora. Se, tendo consciência desses mecanismos, o poeta pode ainda assim experimentar o prazer estético, e se as suas obras podem produzi-lo, não há por que aceitar uma contradição entre a compreensão (sociológica) da arte e o gosto pela arte. Afirmar o contrário, diz Bourdieu, é entrar no jogo (social e da linguagem) que sanciona uma forma de dominação e uma estrutura de diferenças sociais.
Mas o atrevimento e a provocação de Bourdieu, ao se propor realizar uma sociologia da beleza, legitimam-se também no caráter reflexivo do livro, já que a mesma revolução, que anunciou a invenção da arte pura, anunciou também a invenção da razão independente cuja referência é o ideal de universalidade no qual Bourdieu fundamenta sua própria compreensão sociológica. O historicismo, em vez de apoiar uma posição relativista, exige aqui uma atitude responsável, um realismo militante. Para Bourdieu, nada está mais longe das essências eternas ou transcendentais que as "razões da razão". À invenção da arte pela arte, que sanciona a existência do artista independente, segue-se a figura do intelectual que age no mundo social (e na política) fazendo valer a sua independência. As figuras de Flaubert e Baudelaire unem-se historicamente às de Zola e os "dreyfusards".
É verdade que em "As Regras..." Bourdieu retorna a antigas discussões -como a crítica à noção sartriana de "projeto criador" que formulara já nos anos sessenta- e trata materiais empíricos utilizados em trabalhos anteriores, por exemplo, a leitura de "A Educação Sentimental", como um exercício de socioanálise feita por Flaubert. Mas "As Regras..." é um livro singular não só pela extensão de suas demonstrações e por seu caráter histórico, como também por seu conteúdo eminentemente político. O "post-scriptum", intitulado "Por um Corporativismo do Universal" é, ao mesmo tempo, uma denúncia e um programa que revela a intenção de toda a obra. Seu esboço da gênese da razão não permite visões nem otimistas nem evolucionistas. A autonomia dos intelectuais não é apenas relativa: sua fragilidade se revela nos retrocessos anteriores e também nas novas ameaças. Bourdieu denuncia que, assim como aconteceu na França após 1848, vivemos uma época de restauração conservadora na qual o mundo do dinheiro e a tecnocracia, por intermédio da mídia, ameaçam a liberdade intelectual, impondo temas e formas de pensar esses temas, associados às representações sobre "o fim" de teorias e disciplinas, ou à valoração positiva da "nova ordem globalizada".
À confusão entre a produção rápida de best-sellers e a pesquisa de longo prazo, à valorização da figura do "tuttologo" ou do jornalista, os intelectuais devem responder com a organização responsável de condições que permitam a realização independente de sua própria atividade. Muito se poderia dizer a respeito das formas de pôr em prática a corporação intelectual proposta por Bourdieu. Mais importante talvez seja compreender que essa ação corporativa está geneticamente relacionada às formas de pensar a universalidade e que, ao propor um "corporativismo do universal", Bourdieu está apostando na sobrevivência de um dos únicos contrapoderes críticos capazes de se contraporem às forças da ordem econômica e política.