

Como entender a ciência hoje? A tradicional pauta filosófica de questões e discussões – “realismo / instrumentalismo”, “internalismo / externalismo”, “ciência pura / aplica- ção tecnológica”, “teoria / experimentação” – parece não ser suficiente para dar conta dos traços mais distintivos da ciência, hoje apresentada em termos de “programas de pesquisa” e de “campos (inter)disciplinares”, pedindo a consideração de uma complexa rede institucional envolvida na sua produção e sustentação. Nesse quadro, "Instituting Science" (Instituindo a Ciência), de Timothy Lenoir, coordenador do programa em história e filosofia da ciência da Universidade de Stanford (EUA), vem decisivamente contribuir para o novo conceito de ciência a ser trabalhado.
Instituições, como observa Lenoir, guiam, viabilizam e restringem quase todos os aspectos de nossas vidas. Apesar desse lugar comum, a originalidade de sua análise da ciência como instituição vem desde sua introdução através da metáfora do Metaverse, mundo de realidade virtual criado por Neal Stephenson em Snow Crash. Nos campos científicos, a atividade profissional dá-se num contexto de instituições que se entrelaçam, justapõem, interagem e, algumas vezes, conflitam, impondo suas regras e exigindo dos seus participantes – assim como o Metaverse o exige dos usuários dos PCs – a corporificação de determinadas habilidades, de uma dada cultura. As instituições científicas são vistas como sites para a coordenação e corporificação de habilidades, antes que abstrações teóricas desmaterializadas. Quem desconhece seus requisitos choca-se contra seus muros “invisíveis”. Quem os domina é capaz de evitar suas restrições, inovar dentro de seus parâmetros, explorar suas brechas. O nível de aculturação institucional é testado pelo sucesso ou não em buscar algo novo ou uma nova posição, fora do repertório permitido pelo contexto. A metodologia e embasamento teórico de Lenoir distinguem sua visão de outros enfoques da ciência como culturalmente produzida. Mediante estudos de caso, explora os processos dinâmicos pelos quais as instituições que constituem e suportam a ciência são formadas, mantidas e tornadas "invisíveis" para os possuidores da cultura requerida.
Como no caso dos fisiologistas e engenheiros das universidades técnicas alemãs do século 19, com seus interesses e luta por reconhecimento acadêmico e socioal, do desenvolvimento de uma política científica para a sua formação, do exame das relações entre ciência (ótica), arte (pintura) e ideologia na Alemanha de 1845 1895, dos desenvolvimentos advindos do estreitamento das relações entre pesquisa científica e iunteresses da indústria farmacêutica alemã, em 1900, entre produtores de instrumentos e construtores de disciplinas, no exame feito por Lenoir e Cristophe Lécuyer do caso da ressonância nuclear magnética.
Embora simpático a direções recentes nos chamados "sciences studies", Lenoir quer "ressuscitar" certos aspectos da investigação da formação das instituições ausentes de tais estudos. Sua abordagem é dupla e mutuamente remissiva: busca caracterizar a ciência enquanto instituição culturalmente construída no contexto social, político, econômico mais amplo e geradora de cultura própria. Não significa ver a ciência como política feita por outros meios, mas reconhecer o papel constitutivo das condições objetivas para o surgimento e sustentação, incluindo os interesses aí envolvidos, mesmo dos campos mais abstratos de investigação.
Expõe sua posição contrapondo-a às de Merton e Ben-David (definição essencialista e “presentista” de ciência), discutindo com Latour e Woolgar (importância dos microestudos), encontrando contribuições em Bourdieu (conceito de habitus, capital cultural e dinâmica de campo), Peirce e James (idéia de verdade como historicamente situada, realismo pragmático e suas relações com a idéia de comunidade), Husserl (conceito de “mundo da vida”), Foucault (análise das formações discursivas), Ian Hacking (relação teoria-experimento) e Nancy Cartwright (análise dos modelos), entre outros.
Sua análise não descarta, mas redimensiona a pauta de questões e discussões tradicionais em seu teor e relevância. Assim, considera a "história interna" da ciência - usualmente identificada como o "conteúdo da ciência" - um elemento crucial da complexa rede social, política, econômica e técnica de inserção da ciência. Nesse conexto, enfatiza-se uma visão centrada na "prática" que evita os problemas das dicotomias interno/externo e trata a busca do conhecimento por meio de seus critérios imanentes como uma forma de ação social interessada.
Declarações no âmbito da teoria, método e técnica são também estratégias sociais de poder; mudanças externas à operação do campo específico, no financiamento e desenvolvimento de projetos ou expansão da clientela de alunos, se refletem na sua lógica. Tal visão traz um novo enfoque às relações entre ciência e tecnologia, ciência e indústria, desde o papel que a instrumentação específica e o treino na sua utilização e interpretação passam a exercer na tarefa, antes exclusivamente acadêmica, da formação de disciplinas.
Em suma, sua análise defende a ideia de que o esforço para construir disciplinas é, simultaneamente, um esforço para inscrever estruturas de sustentação de uma cultura. Essa análise continua com novos desdobramentos em seu "Inscribing Science" (Inscrevendo a Ciência, Stanford Press, 1998), que aprofunda temas relacionados à realidade virtual e sua aplicação na área médica.
Anna Carolina Krebs Pereira Regner Professora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNISINOS