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Ricardo Fabrini - 14 - Maio de 1996
A palavra pintada
Foto do(a) autor(a) Ricardo Fabrini

A palavra pintada

 

RICARDO N. FABRINI

a revista "Gávea" tem divulgado desde o seu primeiro número, em 1984, ensaios e entrevistas de autores renomados como Argan, Rosemberg, Gombrich e Schapiro. Além disso, publica com frequência artigos relevantes de professores e pós-graduandos sobre design, artes plásticas, arquitetura e urbanismo. Enfatizando a arte contemporânea, editou, suprindo uma lacuna, estudos sobre Barnett Newman, Kiefer e Beuys. Reuniu também ensaios sobre Barrio, Iberê Camargo e Amilcar de Castro, entre outros, encorpando a fortuna crítica da arte brasileira recente.
Seu último número inclui uma entrevista que reconstitui a trajetória intelectual da crítica norte-americana Rosalind Krauss, professora de história da arte na Columbia University de Nova York, com obra ainda inédita no Brasil. Uma entrevista oportuna, mas descosida, que ganha unidade se pontuada por outros textos (1). Krauss, herdeira do "formalismo" de Clement Greenberg, teórico das vanguardas americanas dos anos 40 a 60, com quem romperia nos anos 70, dedica-se a psicanalisar o pensamento modernista a fim de reparar o que foi reprimido pela história dominante da arte moderna.
Sem adotar um método, pois cada interpretação deve ajustar-se às singularidades de seu objeto, Krauss utiliza, além da psicanálise, conceitos da fenomenologia (para apreender a escultura), do estruturalismo (para ordenar "o fotográfico") e do pós-estruturalismo.
Sua "bricolage teórica", assumida na entrevista, incorpora Merleau-Ponty, Lacan, Barthes e Derrida, reflexo da influência francesa nas universidades americanas, diferentemente de Greenberg que apenas resvalava os discursos filosóficos, preferindo erigir em lei geral da arte as impressões subjetivas decalcadas de seu olhar agudo (2).
Merece destaque também o artigo do artista e pesquisador Ricardo Basbaum que examina, com fluência e domínio conceitual, a relação entre a imagem e o texto ou, na expressão de Gilles Deleuze, "os dispositivos de enunciados e visibilidades". Mostra o autor que as duas práticas podem ocupar campos distintos ou conviver num mesmo "campo ampliado" (um conceito de Rosalind Krauss). Há textos de críticos e historiadores da arte que gravitam em torno da obra. Alguns, semelhantes aos discursos oficiais, mantêm-se a uma distância cerimoniosa, arquivando-a. Outros, cúmplices do artista, abraçam a obra para legitimá-la, sem contudo se confundirem com elas. Os manifestos vanguardistas, escritos muitas vezes pelos próprios artistas, exemplificam esta modalidade discursiva que aproxima a palavra à obra sem borrar suas margens. A produção contemporânea, entretanto, tem embaralhado o enunciado à visibilidade de modo acelerado, alargando o campo das artes plásticas. Desde o "Grande Vidro" de Duchamp, de 1923, em que o conceito verteu-se em ícone, "a palavra migra para dentro da obra", diz Basbaum.
O conceitualismo de Joseph Kosuth e On Kawara, dos anos 70, reduziu a obra a enunciados linguísticos. E no Brasil foram Hélio Oiticica, analisado pelo autor, e Antonio Dias, Antonio Manuel, Cildo Meireles, Mira Schendel, Waltércio Caldas, Nuno Ramos, Fernanda Gomes e Rosângela Renó, também mencionados, que entrecruzaram o visual e o verbal. Poderíamos somar à lista as palavras bordadas de Artur Bispo do Rosário e José Leonilson, e as palavras luminosas dos videoartistas.
Enquanto Krauss atém-se aos textos da crítica que reduzem a arte à sua ilustração, Basbaum visa os "escritemas" (no neologismo de Wilcon Jóia Pereira), as palavras e os sinais gráficos incorporados pelos artistas à materialidade da obra. Temas fecundos neste momento em que historiadores e artistas reinterpretam em textos e imagens o período das vanguardas, assimiladas à tradição, e seu legado à arte atual.
Integram ainda este número: um ensaio sobre a relação entre o abstracionismo e o design nas vanguardas históricas, de Washington Lessa; uma análise do "pós-urbanismo", período em que a cidade não é nem prospectiva, aberta para o futuro, nem uma "inscrição memorial", pois não retém o passado apesar da nostalgia de muitos arquitetos atuais, de Anthony Vidler; uma interpretação das pesquisas recentes do espaço urbano do Rio de Janeiro no início do século, de Sonia Pereira; o resgate da "arte urbana" de Augustin Rey no Brasil, do mesmo período, de Heliana Salgueiro; e por fim um estudo sobre o papel da experiência sensível, a serviço do prazer, na "pintura rococó" de Antoine Watteau e Jean Fragonard (séc. 18), de Raquel Pifano. Uma publicação que, apesar da variedade temática e alguns desníveis, tornou-se indispensável com o tempo, não somente pela carência editorial na área, mas sobretudo pela seriedade na pesquisa e o zelo estilístico que definem a revista. Por essa rota singra a "Gávea".

NOTAS
1. Cf. de R. Krauss "The Originality of The Avant Gard and Other Modernist Myths", MIT Press, (1986); "The Optical Unconscious", MIT Press, (1993); "A Escultura no Campo Ampliado" em "Gávea", nº 1, (1984); ou a entrevista a Bernardo Carvalho "Fantasmas Modernistas Voltam para Assombrar História Oficial", Mais!, Folha, 30/01/94, págs. 6-4.
2. Para aprofundar o estudo da herança e dos limites do "formalismo" do crítico americano é possível ainda consultar as resenhas publicadas em "Gávea", nº 12 (dez/94), do Congresso Greenberg realizado no Centre Georges Pompidou, Paris (1993).

Ricardo Nascimento Fabrini é professor do departamento de filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e autor de "O Espaço de Lygia Clark" (Atlas). 

Ricardo Fabrini é professor do departamento de filosofia da USP.
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