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Istvan Jancso - 70 - Janeiro de 2001
A nação como enigma
Foto do(a) autor(a) Istvan Jancso

A nação como enigma

Um Mapa da Questão Nacional
Organização: Gopal Balakrishnan
Introdução: Benedict Anderson
Tradução: Vera Ribeiro e César Benjamin (revisão)
Contraponto
(Tel. 0/xx/21/259-4957)
335 págs., R$ 35,00
A complexidade do fenômeno nacional 

ISTVÁN JANCSÓ

Comparado com o título desta edição brasileira, o original -"Mapping the Nation"- é muito mais feliz, pois o volume oferece um painel de abordagens em movimento (daí o "mapping"), e não o retrato cristalizado de variantes particulares ("um mapa"), mediante as quais a questão nacional expõe faces visíveis do enigma que encerra. A razão de ser do livro está nesse âmbito: o das condições de inteligibilidade da problemática nacional, fenômeno político em torno do qual, nas palavras introdutórias de Benedict Anderson, não existe consenso analítico, o que se deve em boa parte à dificuldade em "conciliar sua universalidade com sua necessária particularidade concreta".
De fato, quem procura trajetórias nacionais específicas (as particularidades concretas de Anderson) perderá seu tempo, mas ganhará muito aquele que recorrer a este livro em busca de instrumental para desvendar o emaranhado de relações e significações que tornam inteligível a nação, esse fenômeno inscrito na longa duração e dotado da mais contundente atualidade.
"Um Mapa da Questão Nacional" oferece um painel que contempla elenco importante de variantes interpretativas contrapostas durante a última década, reunindo escritos de boa parte dos mais influentes estudiosos do fenômeno nacional ainda em atividade. Destes, foram selecionados textos já publicados na década de 90 (exceto a introdução de Benedict Anderson, único texto escrito originalmente para este volume), critério que acabou servindo para conferir uma feição de diálogo ao resultado final, espécie de colóquio circunscrito a autores que usam as línguas inglesa e alemã para a divulgação de seus trabalhos.
Esse recurso de escolha permitiu colocar em diapasão assemelhado resultados de pesquisas e reflexões sobre a questão nacional que remontam a quase quatro décadas (Ernest Gellner) ou pouco menos (três nos casos de Anthony Smith e Miroslav Hroch, duas no de Benedict Anderson), agora contrapostas entre si e submetidas ao escrutínio de proposições nitidamente impostas pela pulsante perplexidade planetária diante da intensidade dos desdobramentos práticos (inclusive nacionais) da polaridade globalização-particularismos. São nomes de grande prestígio acadêmico, já se vê, aos quais se somam outros de similar estatura, dentre os quais os mais conhecidos pelo público brasileiro são Eric Hobsbawm e Jürgen Habermas.

Inimigos e interlocutores
Um dos méritos desta reunião de 13 especialistas contemporâneos (cujos textos são precedidos por "Nacionalidade" e "A Nação", de Lord Acton e Otto Bauer, publicados respectivamente em 1862 e em 1924) é que tomamos conhecimento, ao menos no âmbito do que o livro oferece, das tendências do debate em curso. O teor da maior parte dos textos revela claramente quem elege quem como alvo de suas críticas ou, então, como seu interlocutor privilegiado, mapeamento possível mediante a leitura das referências cruzadas, sempre esclarecedoras.
A opção editorial de privilegiar textos curtos, incisivos e nitidamente polêmicos facilita a percepção de que o alvo da crítica de Gellner é o marxismo subjacente às análises de Hobsbawm e Hroch -e não o importante "Nação e Consciência Nacional", de B. Anderson (Ática). Gellner retoma debates antigos, como o suscitado pela publicação por Hobsbawm de "Nação e Nacionalismo Desde 1780" (Paz e Terra) e o que manteve com Hroch, desde pelo menos 1985, ano do lançamento de "Social Preconditions of National Revival in Europe" (Precondições do Reaparecimento Nacional na Europa).
Cabe ressaltar que a polêmica Hroch-Gellner é exemplar em termos de densidade historiográfica. Ambos estão muito à vontade nesse campo, profundos conhecedores que são da história moderna e contemporânea do império austríaco. E é de notar, também, que os que dialogam preferentemente com Anderson tendem a passar ao largo de Gellner (casos de A. Smith ou G. Balakrishnan), se referindo no entanto a Hobsbawm.
A forma de organização do livro permite expor, para além da enorme complexidade do fenômeno nacional, a dificuldade da definição do contorno preciso deste conceito. A pretexto de debruçarem-se sobre um conjunto preciso de significações ou, se quisermos, sobre um problema histórico precisamente configurado, cada autor oferece um amplo elenco de alternativas investigativas que não apenas ratificam o alerta de Benedict Anderson quanto à inexistência de consenso analítico, mas acenam para a impossibilidade de desvendar o enigma que, sendo real, corre o risco de ser soterrado pelo peso da "indústria acadêmica estruturada em torno dos conceitos de nação e nacionalismo, tão vasta e interdisciplinar que rivaliza com todos os outros focos contemporâneos de produção intelectual", nas palavras de K. Verdery.

Interesses específicos
No caso de "Um Mapa da Questão Nacional", merece destaque o fato de os autores problematizarem o "tema geral" a partir de ângulos de observação que, além de se inserirem em particulares trajetórias pessoais de investigação, acabam definindo pontos de interesse muito específicos, o que dificulta uma percepção nítida do conjunto. Para Habermas, o centro de interesse é o Estado nacional como fato político contemporâneo; mas o que interessa a Partha Chatterjee é o nacionalismo, mais precisamente aquela de suas vertentes que, nas décadas de 1950 e 1960, "ainda era considerado uma das características das lutas anticolonialistas das África e da Ásia", fenômeno este de que, segundo ele, a obra de Anderson não dá conta.
Mas não é só Chatterjee que, ao introduzir a variante colonial da questão nacional no debate, põe em pauta aquilo que lhe diz respeito de modo mais imediato. Na verdade, a maior parte dos autores alicerça seus textos no conhecimento verticalizado de alguma realidade histórica particular (a da Romênia contemporânea, no caso de Verdery; a da Escócia, no de Nairn), sempre problematizada pela presença de variáveis de natureza universal (a moderna sociedade industrial para Gellner, o capitalismo para Hroch ou Hobsbawm).
E tem sido assim desde que o fenômeno nacional começou a merecer a atenção dos estudiosos, como mostram os textos de Lord Acton e Otto Bauer. Trata-se, em ambos os casos, de formulações matriciais, com o primeiro antecipando a denúncia do nacionalismo que hoje perpassa a obra de Hobsbawm, esse herdeiro de três tradições universalistas concomitantes (a marxista, a judaica e a imperial britânica, referência de Lord Acton), e com Bauer antecipando uma linha de investigação que será retomado pelo marxismo francês da década de 60, especialmente nos estudos de P. Vilar e seguidores.
Todos esses pontos polêmicos, aos quais se somam outros de igual relevância (dentre os quais os problemas de periodização que remetem aos de origem, estágios e perspectivas do fenômeno; as questões em aberto quanto à natureza da articulação da tríade nação-nacionalismo-Estado nacional), conferem importância e atualidade a esta obra coletiva.
Dois reparos, entretanto, fazem-se necessários. O primeiro decorre do critério adotado para a seleção de autores e texto, do qual um dos resultados é a ausência quase total de referências a situações e trajetórias ibero-americanas, processos cujo conjunto representou a maior explosão de fenômenos nacionais de tipo fundacional na esfera do Estado durante o século 19. O segundo reparo diz respeito à qualidade da tradução e da revisão técnica. É impossível deixar de registrar a frequência de passagens reveladoras de lamentável descuido, postura que atinge dimensões de ridículo às páginas 91-177-178, com a reiterada atribuição da política josefina (referida a José 2º da Áustria) a uma tal de Josefina, nascida da desinformação da tradutora e do revisor.


István Jancsó é professor de história na USP e autor de "Na Bahia Contra o Império - História do Ensaio de Sedição de 1798" (Hucitec).

Istvan Jancso é professor do departamento de história da USP.
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