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Vavy Pacheco Borges - 104 - Março de 2009
A mulher e o mito
Foto do(a) autor(a) Vavy Pacheco Borges

Vavy Pacheco Borges

 

Leila Diniz – Uma revolução na praia

Joaquim Ferreira dos Santos

COMPANHIA DAS LETRAS

312 p., R$ 39,00

 

Uma insaciável fome de imagens e testemunhos é entretida pela mídia e interage com a curiosidade que a maioria de nós tem sobre a vida alheia. Quer-se "consumir a vida dos outros", próximos e longínquos (e até fictícios, como no caso das novelas da TV); o crescente interesse pelas biografias parece ter tornado o gênero, que vem desde a Antiguidade, tão rentável que só perde para o segmento de auto-ajuda.

A coleção “Perfis Brasileiros” se encaixa nessa onda, à procura de vultos da história nacional. Ao escolher o jornalista carioca Joaquim Ferreira dos Santos para mais um perfil, a editora inovou duplamente: contratou um autor não acadêmico e abandonou a exclusividade masculina. Mulheres famosas do século passado povoam nosso imaginário como musas e arquétipos: em lanchonete paulistana de sucesso, há três sanduíches “femininos”: Carmen Miranda, Leila Diniz e Marta Rocha; Nara Leão e Maysa Monjardim, são objeto de biografias e mini-séries.

Mas é Leila quem, na década de 1990, foi apontada pela antropóloga Miriam Goldenberg como “uma das mulheres que melhor simbolizam as transformações dos papéis femininos na década de 60, em função de seu comportamento inovador e transgressor, principalmente no que diz respeito à sexualidade, conjugalidade e maternidade”. Se pretendia sucesso popular, parece ter acertado: em jornal carioca Zuenir Ventura escreveu que o livro é  “uma companhia agradável  para este verão” e outra coluna  registrou sua leitura por Eduardo Suplicy nas areias de Ipanema, justo onde, segundo o autor, teria se realizado “uma revolução na praia”.

Na esteira da muita tinta e celulóide, o autor (às vezes em tom inconfundivelmente masculino) gira em torno do mito da mulher já em vida reconhecida como tal. Cantaram-na em prosa e verso Carlos Drummond, Millor Fernandes, Flávio Rangel, Erasmo Carlos, Rita Lee; o caso de amor com Ruy Guerra, pai de sua filha, registrado em crônicas e memória de Danuza Leão, foi elogiado no rádio pelo então candidato a governador José Serra. Leila foi objeto de tese de doutorado e dissertação de mestrado, além de ensaios acadêmicos.

 

Carioquice libertária

 

Trunfo maior do livro, o afresco panorâmico de círculos das elites do Rio de Janeiro nos anos 1960 detalha certa “carioquice” libertária, as transformações de costumes  em paralelo ao clima de repressão  instaurado com o golpe civil-militar de 1964. O Peeping Tom que há em nós recebe um prato cheio: quem viveu, curte lembrar; quem não viveu, se diverte com fatos que o autor esmiúça com leveza, humor, ironia, o lado bom do jornalista que pega fácil na pena. Falta-lhe, porém, um fundo de reflexão que se sente nos saborosos cronistas atuantes no Rio na década de 1950-60, que no estilo leve do gênero tocam de forma aguda no mistério da vida, do ser humano. 

O trabalho do jornalista  tem em comum com o do historiador (e mesmo do detetive ) a procura de provas sobre os fatos que investigam; mas os registros de compreensão e análise costumam ser diferentes, em geral devido à formação e prática profissional. Eis algumas generalizações do autor: “Nunca se soube direito como a ambigüidade em que foi jogada conduziu seu futuro”; “na constante confusão de inferno paraíso na vida carioca”. “O mundo começava a viver a década de sessenta”. Logo após a morte de Leila, observa: “Uma Ipanema, de boemia intelectualizada, despedia-se e outra, na contracultura das drogas e com forte cheiro de patchouli, entrava em cena”.

J.F. dos Santos usou informações levantadas na imprensa, bibliografia e filmografia sobre Leila e realizou mais de 70 entrevistas. Tenta humanizar o mito com pinceladas sobre as tristezas, angústias e ambigüidades da mulher; lembra duas vozes que destoam do coral de elogios. Menciona no penúltimo capítulo certa posição crítica em relação a “todo mundo (que) faturou” a morte de Leila. No entanto, de algum modo cancela ou omite a questão que amiúde se apresenta ao pesquisador: cada informação vem através de uma versão e as versões divergem! (embora contraponha três versões sobre a exclusão de Leila das novelas da Globo). Nota-se falta de cuidado ao afirmar que ela descobriu quem era sua verdadeira mãe aos 10 anos e logo adiante que fora aos 14; Sérgio Ricardo teria quase 20 anos mais que ela e não 14 ou 15.

A capa decepciona, pois Leila em biquíni foi considerado “algo batido” na época pelo fotógrafo do Pasquim e soa como apelo fácil. Apesar das temporalidades intermitentes, ao abrir o texto buscando na infância o gosto pelo palco, o destino de artista-vedete, a compreensão dessa vida parece perpassada por visão linear que pensa a pessoa como um projeto que vai se realizando e no qual as encruzilhadas de percurso e o acaso não teriam papel.

Penso que a primeira grande injustiça da vida é que uns nascem bem dotados para ela e outros não; Leila me parece ter sido especialmente bem dotada. Essa mulher dita “revolucionária” mereceria um perfil mais ousado. Não se pode esgotar a riqueza da experiência individual e tampouco se pede um psicologismo simplificador da personagem. O autor fornece pistas para que um dia - talvez a partir da abertura total de seus diários – alguém possa chegar a um retrato mais provocativo do que este itinerário convencional de Leila Roque Diniz.

 

Vavy Pacheco Borges é professora do departamento de história da Unicamp.
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