

A mitologia prosaica
Obra transcreve 12 mitos dos índios kaxinawás
MANUELA CARNEIRO DA CUNHA
Os kaxinawás têm um lugar preeminente na literatura nacional: ninguém menos do que Capistrano de Abreu fez o primeiro estudo de sua língua, posteriormente classificada como pertencente à família "pano". Entrevistando dois índios do rio Muru, do Acre, recolheu um acervo de frases organizadas por temas e historietas, que traduziu interlinearmente. A partir desse material, fez uma primeira descrição da gramática e um dicionário kaxinawá-português e português-kaxinawá. Foi assim publicado em 1914, no Rio de Janeiro, um livro de mais de 600 páginas sob o título "Rã-txa hu-ní ku-i, a Língua dos Caxinauás do Rio Ibuaçu, Afluente do Muru (Prefeitura de Tarauacá), por J. Capistrano de Abreu". Aparece o nome da tipografia Leuzinger, mas como soía acontecer, não existe propriamente editora.
Se comecei pela história do livro "Rã-txa hu-ni ku-i", é porque os livros são não só portadores de informação, mas eles próprios, como objetos, contêm informação. Meu filho -e parece que não é só ele- costuma cheirar com deleite os livros novos que recebe, antes de lê-los. Essa relação com os livros como objetos é, para mim pelo menos, difícil de apreender. Mas, neste caso, a história dos livros de histórias kaxinawás salta aos olhos. Há que ler os indícios: opções editoriais, grafias, autorias, formatos, qualidade do papel...
Quase cem anos depois, um novo livro de histórias kaxinawás vem à luz. Tudo nele é diferente do de Capistrano de Abreu. O livro chama-se "Shenipabu Miyui", que se traduz ainda na capa por "História dos Antigos". Em vez de autores, há uma página inteira de créditos: narradores, escritores e ilustradores são todos kaxinawás, mas há vários índios também entre os assessores, revisores e até digitadores. A coordenação geral é bifronte: deve-se à linguista Nietta Lindenberg Monte e a Joaquim Paula Mana, professor bilíngue kaxinawá. A primeira edição, de 1995, é da Comissão Pró-Índio do Acre na capa. Na segunda edição, revista, feita dentro das celebrações "Brasil 500 anos", os direitos autorais são da Organização dos Professores Indígenas do Acre. O papel, a qualidade de impressão e a reprodução das belíssimas ilustrações são de um livro de luxo.
Todas essas sutis transformações são ligadas à história dos movimentos indígenas e das organizações não-governamentais dos últimos 20 e poucos anos. A Comissão Pró-Índio do Acre teve um papel extraordinariamente coerente e importante nos movimentos indígenas do Estado. Para os kaxinawás, o mais numeroso grupo do Acre, a década de 70 foi a das demarcações das terras. A década de 80, da organização das cooperativas gerenciadas pelos próprios índios, que subvertem o funcionamento tradicional dos seringais. A Comissão Pró-Indio do Acre começa em 1983 um programa de formação de professores indígenas em que uma nova geração de líderes irá se fortalecer. Como ocorreu em outros lugares da Amazônia, os professores ou monitores indígenas passam a constituir suas próprias organizações e a assumir um papel político importante, enquanto as ONGs que os assessoram e apoiam diminuem sua visibilidade. É assim que no livro que estou resenhando, em vez da Comissão Pró-Índio do Acre da primeira edição figura agora a Organização dos Professores Indígenas do Acre.
O livro é resultado de seis anos de trabalho, de 1989 a 1995. Uma excelente introdução enfatiza o caráter educativo do processo de sua realização e conta a gênese do projeto: Osair Sales Siã, então jovem professor bilíngue, que desde essa época realizou filmes e ganhou um Prêmio Reebok de Direitos Humanos, sai de sua aldeia no rio Jordão e vai em uma viagem de revitalização cultural ao Peru, com o apoio da Comissão Pró-Indio do Acre. Era 1989. No Peru viviam grupos refugiados nas cabeceiras do rio Curanja que fugiram das "correrias" -as matanças organizadas de índios que marcaram as várias décadas iniciais da exploração da borracha- ou do "cativeiro" dos seringais, ou seja, o trabalho na seringa e a sujeição aos patrões. O Curanja, um afluente da margem esquerda do alto curso do Purus, não tinha nem seringa nem caucho, e os refugiados ficaram em segurança na região até à década de 1940, quando desceram à procura de regatões peruanos para se abastecerem de instrumentos de ferro.
Os kaxinawás do Curanja eram, dada essa sua história, considerados mais tradicionais do que os do lado brasileiro. Por outro lado, os kaxinawás peruanos tinham escolas bilíngues desde os anos 50. Siã grava uma série de histórias e cantos e pede a um professor kaxinawá peruano que venha a Rio Branco transcrever e traduzir os textos. Esses textos passam por intenso escrutínio por parte de velhos e professores kaxinawás de várias aldeias brasileiras, tanto quanto ao conteúdo ou à forma das histórias quanto em relação à grafia mais apropriada.
Prestígio da escrita
A escrita, é sabido, goza de grande prestígio em si mesma. A demanda pela escrita em português e pela aritmética tinha, na época das cooperativas, motivos adicionais, muito pragmáticos: eram necessárias para a contabilidade das cantinas. Mas o prestígio da escrita vai muito além da sua razão instrumental. Poder-se-ia debater se vale a pena escrever uma língua que sempre foi só oral. O ensino bilíngue indígena e os materiais escolares que produz têm a ver com a revalorização da língua local por meio da escrita. O preço a pagar é o risco de desvalorização da oralidade. O mesmo se aplica às histórias tradicionais. Ver a língua kaxinawá, as histórias kaxinawás, impressas, em edição de luxo, dá-lhes um status mais alto, assim como ser autor, e não simplesmente informante, dignifica os kaxinawás. Mas é preciso agora cautela: as histórias impressas adquirem autoridade sobre as outras versões. Podem solapar a autoridade, até agora dispersa, de cada narrador sobre a sua versão; podem diminuir a produção e circulação de outras versões. Podem, em suma, prejudicar aquilo mesmo que celebram.
Falei até agora do contexto: passemos finalmente ao texto (e terei de deixar de comentar as lindíssimas ilustrações). São 12 mitos, transcritos em kaxinawá e depois livremente contados em português regional. Como teria observado monsieur Jourdain, o português parece muito mais sintético, em geral, do que o kaxinawá: as seis páginas da história do relâmpago e do trovão em kaxinawá, por exemplo, se traduzem em página e meia de português. A diferença estaria na opção de traduzir ou não os diálogos kaxinawás. Em alguns casos, os diálogos foram mantidos em português e o sabor kaxinawá se percebe com muito maior nitidez.
Não se trata aqui de fazer uma análise desses mitos. Tento ao contrário me colocar na posição de um leitor novo e pensar no que ele poderia gostar ou aprender com estas histórias. Os mitos amazônicos são, em geral, prosaicos. Não é só Macunaíma que não tem caráter, é a própria noção de caráter que não parece central na mitologia. A história do japó tem analogias, por exemplo, com o retorno de Ulisses -o herói da memória- e o massacre dos pretendentes de Penélope. Mas na história kaxinawá, trata-se do marido abestalhado de uma mulher bonita que se deixa enganar várias vezes seguidas pelos pretendentes da mulher que o querem matar.
A beleza da mitologia amazônica é justamente esse prosaísmo. Histórias cosmogônicas, como por exemplo a do relâmpago e do trovão, que misturam personagens da terra e do céu, ou da origem das cores dos pássaros, são contadas quase como episódios domésticos cotidianos, cujos ingredientes essenciais são sobretudo sexo e comida. Como os bichos são humanos transformados (e muitas histórias são justamente as das circunstâncias em que se tornaram bichos) e como não há deuses, reina um clima informal nesses mitos. A descoberta que um leitor pode fazer é justamente de um universo novo. Com 500 anos de atraso, parece-me apropriado.
Shenipabu Miyui, História dos Antigos
Coordenação geral: Nietta Lindenberg Monte e Joaquim Paula Mana
Editora da UFMG (Tel. 0/xx/31/3499-4650)
168 págs., R$ 17,50
Manuela Carneiro da Cunha é antropóloga, professora na Universidade de Chicago e organizadora de "História dos Índios no Brasil" (Cia. das Letras).