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Ricardo Musse - 55 - Outubro de 1999
A missão do sábio
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A missão do sábio

RICARDO MUSSE

Há certo consenso, pelo menos entre historiadores econômicos, de que no último quartel deste século o mundo passou por grandes transformações. No Brasil, sobretudo nesta década, as consequências desse processo foram exaustivamente examinadas nos mais diferentes domínios do saber, da geopolítica à cultura. Muito pouca atenção, entretanto, se tem concedido à situação do intelectual nesse novo contexto. Uma carência auto-reflexiva ainda mais impressionante quanto se considera que a história do país, nos anos 90, não pode ser entendida sem o exame do "ajuste intelectual" que levou todo um "partido da inteligência", historicamente "do contra", a se posicionar "a favor" -para valer-me aqui de uma contraposição retomada por Paulo Arantes, em "O Fio da Meada" (Paz e Terra).
O mérito de "Intelectuais e Política" consiste não apenas em retomar essa questão, reiniciando uma discussão precocemente abortada entre nós, mas principalmente na forma como a aborda, colocando a reflexão em outro patamar. A estratégia das autoras, formalmente e à primeira vista apenas organizadoras de uma coletânea comentada de textos célebres sobre o assunto, passa pela divulgação da discussão atual sobre o tema na Itália, onde o peso da obra de Gramsci torna a análise histórica do papel dos intelectuais um assunto incontornável do debate público e acadêmico.
Os três textos contemporâneos selecionados partem, por assim dizer, de uma mesma indagação. Essa transformação -cujo evento símbolo foi a queda do Muro de Berlim- alterou radicalmente a figura e a ação do intelectual?
Umberto Cerroni, em um texto de 1991, responde afirmativamente. A mudança adviria não da desestruturação que o colapso do "Socialismo Real" e do Terceiro Mundo anteciparam, e que assume cada vez mais a forma de um desmonte da sociabilidade regida por direitos, mas do enorme desenvolvimento da "objetividade social" e de seus canais institucionais, a contrapartida desse processo de desintegração. O predomínio da "cultura espetáculo" e da "cultura instituição" -e aqui salienta-se não só o novo papel da escola, da universidade, da pesquisa organizada, da mídia, mas também a substituição da tarefa pedagógica pela "política cultural", como parte específica e sistematizada das atividades da administração pública- tendem a esvaziar a figura tradicional -e a missão- do sábio.
Salvatore Veca retoma a distinção de Max Weber entre a vocação do cientista e a do político, ou seja, a delimitação dessas atividades como esferas separadas e âmbitos de experiências incomunicáveis. A discrepância em relação à tradição italiana -seja a gramsciana, que busca identificar a base cultural dos políticos e a base política da cultura, seja a de Norberto Bobbio, cujo clássico de 1955 "Política e Cultura" (do qual temos uma pequena, mas ilustrativa amostra nessa coletânea) recomenda o difícil equilíbrio entre empenho político e autonomia intelectual- justifica-se para Veca pela consolidação da democracia na Itália, uma experiência não vivenciada por Gramsci ou mesmo Bobbio.
Já Domenico Losurdo procura minimizar as modificações, recorrendo a uma instigante reconstituição histórica do debate sobre o papel do intelectual moderno. A abertura de um espaço público ampliado, a partir do século 18, tornou a parcela socialmente desenraizada dos intelectuais um fator importante da luta político-social. A denúncia contemporânea da "desmesura intelectual", da elaboração de "utopias que violentam a ordem existente", com Nolte e Furet, apenas retoma um tópico já desenvolvido pelos partidos dos proprietários -Schmitt e Hayek, e mais atrás Burke e De Maistre.
Elide Rugai Bastos e Walquíria Leão Rêgo posicionam-se em relação a esse debate sob uma dupla perspectiva -como autoras de um ensaio introdutório e enquanto organizadoras da coletânea. No artigo significativamente intitulado "A Moralidade do Compromisso", destacam dois fatores conjugados que marcam a contemporaneidade: a transformação do acadêmico em especialista ou técnico (desconectado por definição do debate público) e a transformação dos critérios da visibilidade pública do intelectual, isto é, a substituição do valor intrínseco da obra pela lógica do mercado. Essas novas condições entretanto não constituem uma inflexão decisiva. A reconstituição histórica da figura do intelectual moderno ressalta a conjugação intermitente de crítica e crise. Embora a crise possa levar à perda do senso crítico, "à naturalização do conflito social e à consequente indiferença em relação ao sofrimento humano", a aposta das autoras é na atitude oposta -na retomada dos imperativos éticos da atividade intelectual, no compromisso com a justiça social e a liberdade.
A seleção dos demais textos que constituem a coletânea -de Fichte, Ortega y Gasset, Julien Benda, Elio Vittorini e Jean-Paul Sartre- explica-se pelas referências que lhes são feitas no debate italiano contemporâneo. Mas também explicitam a posição das organizadoras. Traduzem a exigência intelectualmente simultânea -e paradoxal- de manter a distância crítica e o envolvimento com a sociedade, moldado por uma orientação normativa que não abdica de situar os intelectuais como sujeitos morais. Uma compreensão da responsabilidade do intelectual que não deixa de estar na contramão de uma época que, malbaratando a distinção de Weber, procura transmutar a exigência de autonomia diante dos poderes constituídos em adesão e conformismo.



Intelectuais e Política - A Moralidade do Compromisso Elide Rugai Bastos e Walquíria D. Leão Rêgo (orgs.) Olho d'Água (tel. 0/xx/11/263-9633) 216 págs., R$ 19,00


Ricardo Musse é doutor em filosofia pela USP e membro da comissão executiva da revista "praga" (Hucitec). 

Ricardo Musse é professor do departamento de sociologia d USP.
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