Logotipo do Jornal de Resenhas
Marilia Rothier Cardoso - 114 - Novembro de 2012
A missão do crítico
O terceiro volume do acervo epistolar de Mário de Andrade
Foto do(a) autor(a) Marilia Rothier Cardoso

MARÍLIA ROTHIER CARDOSO

A missão do crítico

O terceiro volume do acervo epistolar de Mário de Andrade

 

CORRESPONDÊNCIA MÁRIO DE ANDRADE & HENRIQUETA LISBOA

Organização: Eneida Maria de Souza

EDUSP/ PEIRÓPOLIS

400 p., R$ 65,00

 

 

Numa das primeiras cartas de Henriqueta Lisboa a Mário de Andrade, a escritora afirma convicta: “Sempre pensei que a missão do crítico fosse, acima de tudo, orientar, desbravar caminhos, adivinhar possibilidades.” Este terá sido o motivo forte capaz de levar a moça mineira, naqueles idos de 1939, a insinuar-se, com suavidade e firmeza, no grupo já numeroso dos correspondentes de Mário. Observando, atenta, o trabalho jornalístico e o intercâmbio epistolar do líder modernista, Henriqueta saía em demanda dos “aspectos novos” oferecidos, para “esperança” da mocidade, por essa atividade crítica afirmativa e útil.

 

Sua intuição foi certeira; Mário não resistiu ao apelo daquela discípula segura de seus objetivos e empenhada em aperfeiçoar sua arte. A troca de cartas, que se manteve regular até 1945, permitiu o registro de especulações inusitadas sobre o processo construtor da poesia e evidenciou um confronto oportuno de perspectivas sobre moral e estética, além de confirmar a vocação ensaística potente da correspondência pessoal.

Resgate do biográfico

O conjunto precioso de 109 documentos enviados (cartas, cartões, bilhetes e telegramas), constitui o 3º volume da série projetada pelo IEB-USP para divulgação do enorme acervo epistolar de Mário de Andrade. A edição das conversas – por escrito – com Henriqueta Lisboa vai muito além da classificação ordenada dos papéis e da fixação técnica do texto. Como especialista em teoria da literatura, dedicada, nos últimos anos, a resgatar o biográfico como dimensão inescapável do rigor analítico-interpretativo, Eneida Souza ocupa a linha de frente do movimento que descobre, no horizonte do pensamento atual, outros “aspectos novos” da tarefa crítica. A acuidade de seu trabalho, evidente no ensaio introdutório, desdobra-se na riqueza das notas, onde se estabelecem nexos com o conjunto da correspondência marioandradiana, e na reunião de documentos verbais e iconográficos, que compõem um contexto adequado à recepção das vozes em contraponto.

Muito mais que um instrumento de consulta, a Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa aparece como leitura fascinante, pois destaca a vertente dupla das cartas – romance em fragmentos e work in progress avaliativo-conceitual –, abrindo conexões com a história social e a literária, a erudição artística, os debates críticos da época e de agora.   

 

Nos sete anos em que se correspondeu com Mário de Andrade, Henriqueta compôs três livros, Prisioneira da noite (1941), O menino poeta (1943) e A face lívida (1945), onde se inscreveu a marca das “possibilidades” reveladas pelo mestre-crítico, como quis a autora e ficou registrado em cada etapa da correspondência. Os aspectos peculiares dessa relação de afinidade eletiva cristalizaram-se em motivos e expressões recorrentes tanto nas cartas quanto nos poemas, evidenciando contaminações entre a linguagem epistolar e a poética. Não é por acaso que “Prisioneira da noite”, o poema que abre e nomeia o livro, aparece com frequência nas cartas. São debates técnico-estéticos e comentários sobre questões práticas onde a dramaticidade confessional se mistura ao distanciamento do humor, desqualificando, decisivamente, a separação entre privado e público, sinceridade referencial da carta e postura ficcional assumida na literatura.

Tratamento ambíguo do feminino

Quando discute, poema por poema, o trabalho da discípula, Mário, servindo-se da informalidade da carta, condena, sem rodeios, tanto os “três versos historiados: ‘Sou a princesa que desceu da torre’” quanto a timidez infantil daquela que os escreveu: “Você é muito mais que a princesa esperando o menestrel, você é a mulher, MULHER, prisioneira da noite, Henriqueta! Você inventou uma imagem lírica admirável e depois vai enfraquecê-la com essa princesa boba e esse menestrel insuficiente?”.

 

Pode-se perceber, nessa passagem emblemática, como era ambíguo o tratamento do feminino, até entre escritores e intelectuais. Eneida Souza explora, em seu ensaio, a complexidade da situação da mulher, que envolve as estratégias da poeta para participar de maneira recatada mas ativa da vida literária, tanto quanto seu cuidado em garantir a atenção daquele que se fez divulgador das vanguardas e defensor da participação efetiva do artista nas políticas públicas sem renunciar a dicção tradicional nem os valores de um idealismo universalista.

 

Como estudioso do folclore, Mário de Andrade escolheu o tema luso-brasileiro da “dona ausente” para sua conferência de 1939 em Belo Horizonte. Ainda que desinteressada pelo legado poético do povo, Henriqueta identificou-se – não sem uma esperta distância irônica, como ressalta a ensaísta – com esse lugar idealizado da mulher e, não tendo podido assistir a palestra, apressou-se a convidar o palestrante a visitá-la e, assim, sempre discreta mas (nas palavras de Eneida) em “posição firme e audaciosa”. Assim teve inicio a correspondência que lhe reservaria lugar especial entre os interlocutores de Mário de Andrade.

Papel da correspondência

Quando artistas e intelectuais trocam correspondência sobre suas atividades, discutindo posições, estão seguros de que, propositalmente, servem-se desse instrumento particular em substituição estratégica do veículo público, que é o ensaio. Se o ensaio já garante grande flexibilidade ao pensamento, a carta ainda é mais conveniente, pois permite que a busca de saber se enriqueça com a partilha imediata de opiniões, incluindo sensações momentâneas e a flutuação dos afetos. Tal porosidade da carta (e, hoje, de suas alternativas virtuais) às circunstâncias da vida torna-a um espaço privilegiado de construção de conhecimento.

 

Se a jovem Henriqueta Lisboa foi ardilosa ao apropriar-se da imagem da “dona ausente” para atrair a atenção de Mário de Andrade, a pesquisadora Eneida Souza foi muito mais perspicaz quando elegeu a questão da ausência como eixo de seu ensaio crítico e de toda a arquitetura engenhosa do volume. Só a ausência justifica a troca de cartas, e só quando se abandona o apego à presença de um sentido pleno – apego próprio da linhagem filosófica ocidental – é que se logra explorar a dimensão autocrítica do pensamento. A organizadora elege as cartas como objeto de seu trabalho e organiza-as num volume esteticamente adequado porque sabe que só a ficcionalidade assumida da escrita (escrita verbal ou verbo-visual) tem a potência cruel do vazio, aquela margem fantasmática, que vai produzindo sentido na medida mesma da impossibilidade de esgotar o alcance indefinido de suas vertentes.

 

Enquanto Mário reforça o saber coletivo de que só a paixão pelo objeto ausente constrói o lirismo, a pesquisa dirigida por Eneida Souza ressalta as várias formas da distância entre os interlocutores como condição de uma aprendizagem efetiva onde mestre e discípulo mantenham-se autônomos em sua demanda apaixonada do outro. Compondo um jogo atraente com ensaio, cartas, notas explicativas, fotografias, reproduções de pintura e manuscritos, Eneida oferece à investigação curiosa do leitor das cartas alheias um artifício ficcional interessante: enquanto materializa as figuras de Henriqueta e Mário, insiste na ausência seja dos corpos e almas deles, seja do mundo em que buscaram encontrar-se. Os desencontros inspiradores da poética de ambos são resgatados, daqui para o futuro, na cena performática deste livro.

 

Marília Rothier Cardoso é professora de literatura brasileira da PUC-Rio.

 

Marilia Rothier Cardoso é professora do departamento de Letras da PUC-Rio
Top