

A mentalidade quantitativa
CARLOS ARTHUR RIBEIRO DO NASCIMENTO
O professor Crosby, da Universidade do Texas, escreveu dois livros anteriores -um dos quais traduzido em português, "Imperialismo Ecológico" (Companhia das Letras)- para explicar, como ele mesmo diz, "o espantoso sucesso do imperialismo europeu". Este "A Mensuração da Realidade" inscreve-se também nessa busca de explicações, apontando o que seriam certos "hábitos de pensamento" ou o que "os historiadores franceses chamam de "mentalité'".
Para realizar essa tarefa, Crosby propõe-se descrever como despontou na Europa, no fim da Idade Média e no Renascimento (1250-1600), um modelo visual e quantitativo da realidade, em substituição ao que ele denomina "o modelo venerável", basicamente qualitativo. Convém, aliás, registrar o que ele entende por "realidade": "Tudo o que é material no tempo e no espaço, além dessas duas dimensões em si".
O livro divide-se em três partes que enquadram 11 capítulos. Na primeira parte, depois de um capítulo introdutório sobre a pantometria (mensuração universal), aparece a descrição do "modelo venerável", isto é, "a antiga visão da realidade", que "serviria muito bem por um milênio e meio, e por bem mais do que isso, se considerarmos que boa parte dela também foi o padrão do mundo clássico".
O capítulo três, ao qual se anexam os três seguintes, descreve as "causas necessárias mas insuficientes" da "aceleração havida a partir de 1250, aproximadamente, na transição ocidental da percepção qualitativa para a percepção quantitativa". Trata particularmente dos fatores econômicos, sociais e culturais que condicionaram tal mudança. A seguir, apresenta-se um esboço das mudanças havidas na percepção do tempo (a introdução dos relógios mecânicos nas cidades no século 14 e a reforma do calendário, que já estava sendo discutida no século 13) e do espaço, menos drásticas do que as referentes ao tempo (a introdução da bússola, a produção de mapas mais úteis para o traçado de rotas de navegação e a redescoberta da "Geografia" de Ptolomeu, com a idéia de desenhar mapas traçando uma rede de coordenadas na superfície da Terra). No final dessa parte, indica-se a importância da introdução dos algarismos indo-arábicos, o aparecimento dos sinais das operações e o desenvolvimento da álgebra.
A segunda parte descreve como, no século 16, surge de fato uma nova mentalidade quantitativa. Após ressaltar a importância da visão, a análise de Crosby se estende sobre a escrita musical, que permitiu inclusive o desenvolvimento da polifonia: "Nenhum ouvido é capaz de compreender plenamente essa complexidade no tempo -só a visão é capaz de fazê-lo". Em seguida, refere-se à pintura: o surgimento da perspectiva e a aplicação da técnica de mapas de Ptolomeu nessa arte. Enfim, examina a utilização efetiva da técnica contábil, especialmente da escrituração em duas colunas de "deve" e "haver", criada no século 13 por Leonardo Fibonacci.
O último capítulo retoma em resumo o novo modelo, visual e quantitativo, terminando com a conhecida frase de Galileu sobre o livro do Universo escrito em linguagem matemática.
A obra está redigida de maneira clara e acessível e cita uma abundante bibliografia, que estou longe de ter lido por inteiro. Mas, a julgar pela parte que é de meu conhecimento, trata-se de documentação de primeira qualidade. Independentemente de saber se finalmente Crosby explicou "o espantoso sucesso do imperialismo europeu", seu livro fornece uma apreciável soma de informações sobre a história da cultura européia, sob o aspecto da quantificação e da busca da precisão. Soma tal, que às vezes o leitor pode ter a impressão de estar simplesmente diante de um acúmulo de dados. Nesse sentido, uma boa estratégia de leitura seria talvez começar pelo capítulo sobre a contabilidade.
Alguns aspectos poderiam ser discutidos, como a primazia da razão, que data da Grécia antiga (vide "Metafísica", de Aristóteles). É também dentro do próprio "modelo venerável" que se abre o espaço que será ocupado pela visão quantitativa. Talvez seja sintomático que Crosby não dê muito relevo ao fato de que certas disciplinas (astronomia, ótica, acústica, mecânica), já no mundo antigo, tratavam geometricamente aspectos da realidade física.
É pena também que Crosby não siga, nas referências aos clássicos (excetuada "A Divina Comédia"), as normas costumeiras, fornecendo citações do seguinte tipo: "Edith Hamilton, Huntington Cairns. (Org.) "The Collected Dialogues of Plato". Princeton, N. J.: Princeton University Press, 1961, pág. 62". O que dificulta encontrar as passagens citadas e pode incentivar o desconhecimento do sistema correto de citação ou o desleixo.
A tradução é bastante legível. Talvez se pudesse desejar apenas uma normatização melhor na transposição para o português dos nomes próprios. A apresentação gráfica, excetuadas raríssimas falhas tipográficas, é impecável.
A Mensuração da Realidade
Alfred W. Crosby
Tradução: Vera Ribeiro
Editora Unesp (tel. 0/xx/11/232-7171)
229 págs., R$ 25,00
Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento é professor do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Campinas.