

A máquina narrativa
JOÃO ROBERTO FARIA
O novo livro de Marlyse Meyer, "Folhetim: uma História", é o resultado de cerca de 30 anos de convivência com um assunto para o qual os críticos literários e os intelectuais quase sempre torcem o nariz. Gênero menor, subliteratura, "literatura industrial", o romance-folhetim, construído à base de procedimento muito particulares, sofreu todo tipo de restrição ao longo da sua história, embora o sucesso junto ao grande público tenha garantido a sua sobrevivência por muitas décadas, desde que surgiu na França por volta de 1840, nos rodapés dos jornais.
Em nossos dias, o romance-folhetim desapareceu do seu espaço original e se aninhou nos novos meios de comunicação, inicialmente o rádio e, mais recentemente, a televisão. A radionovela e a telenovela são os seus herdeiros diretos, na medida em que se apropriaram dos seus temas e recursos de construção ficcional.
Marlyse Meyer dividiu o livro em duas partes para nos contar a história do romance-folhetim. A primeira aborda o seu nascimento e desenvolvimento na França; a segunda estuda a sua recepção no Brasil.
O jornalista francês -mile de Girardin foi quem primeiro teve a idéia de publicar romances aos pedaços, no rodapé de um jornal. Em 1836, os leitores de "La Presse" saborearam o delicioso romance espanhol "Lazarillo de Tormes". Não era ainda o romance-folhetim, isto é, o texto escrito expressamente para o jornal, mas o caminho estava aberto. Em pouco tempo, os escritores se adaptaram à nova situação e começaram a adequar os seus romances ao novo modo de publicação. A primeira regra era prender a atenção do leitor, fazê-lo preocupar-se com o destino dos personagens e mantê-lo interessado no curso do enredo.
Para isso, várias técnicas foram desenvolvidas. Era preciso saber "cortar" os pedaços do romance, de modo a criar o suspense ou a curiosidade no final do capítulo ou parte publicada. O enredo, construído com muita imaginação e fantasia, devia ser ágil e suficientemente largo para contemplar uma multiplicidade de eventos e aventuras de tirar o fôlego do leitor. Os personagens, por fim, não poderiam ser complexos, mas tipificados, como os personagens do melodrama, fonte inesgotável dos romancistas populares do século 19.
Na França, Alexandre Dumas e Eugène Sue foram os grandes autores do romance-folhetim do período romântico, entre 1836 e 1850. Segundo Marlyse Meyer, ambos deram feição definitiva ao gênero, que se transformou então "numa receita de cozinha reproduzida por centenas de autores". Em obras marcantes como "O Conde de Monte-Cristo" ou "Os Mistérios de Paris", cada um mostrou enorme talento para contar histórias extraordinárias e seduzir os leitores, que não raro faziam fila nas portarias dos jornais à espera da edição do dia.
Ao final do período romântico, o romance-folhetim entra em sua segunda fase, quase que inteiramente dominada por Ponson du Terrail, autor de uma série romanesca intitulada "Os Dramas de Paris" e também conhecida como "As Proezas de Rocambole". Entre 1857 e 1871, data da morte do escritor, os franceses acompanharam com entusiasmo as aventuras do herói proteiforme, que a cada história se apresentava com uma faceta: justiceiro, bandido, herói, traidor, assassino etc. A imaginação de Ponson du Terrail era tão rica e as tramas tão enroladas, que do nome do personagem surgiu o adjetivo que melhor as define: rocambolescas. Os ingredientes eram os mais diversos: assassinatos, roubos, chantagens, vinganças, sequestros, duelos, raptos, intrigas políticas, envenenamentos, presos inocentes, sedutores, moças seduzidas etc. Nessa "Ilíada de realejo", diz a autora, acumulam-se verdadeiros "macetes narrativos".
A terceira e última fase do romance-folhetim estende-se de 1871 a 1914, período em que dois autores se destacaram: Émile de Richebourg e Xavier de Montépin. Como afirma Marlyse Meyer, estamos longe do "abrangente olhar histórico" de Dumas e Sue e "longe dos desvarios imaginativos de Ponson du Terrail". Os novos tempos aproximam o romance-folhetim do naturalismo, fazendo-o incorporar a idéia de "imitar" a vida, em relatos que nascerão muitas vezes da leitura dos "faits divers" dos jornais da época. São os "dramas da vida", na expressão de Montépin, que passam a emocionar o leitor.
Além de traçar a história do romance-folhetim, pondo em relevo e analisando as obras e os autores mais representativos do gênero, Marlyse Meyer estende os seus comentários para outras questões correlatas. Assim, os movimentos literários do século 19 e aspectos da própria história da França entram em cena para compor o pano de fundo sobre o qual se projeta o romance-folhetim, possibilitando uma série de aproximações instigantes.
Do mesmo modo, a autora não se priva de comentar a repercussão dessa literatura de jornal junto a escritores do primeiro time, como Balzac, Victor Hugo, Flaubert e Zola. Mais ainda, refuta as opiniões de Sartre sobre Ponson du Terrail e acolhe as idéias de Gramsci, que apreciava o romance-folhetim por se tratar do gênero que foi a principal leitura das classes populares. Tudo isso valoriza sobremaneira o livro, pois os comentários conciliam o trabalho de pesquisa, a análise, a erudição e a maneira inteligente e agradável de abordar a variedade de assuntos, num ritmo de escrita que por vezes mimetiza a "máquina narrativa" do romance-folhetim, nas suas infindáveis tramas paralelas.
Terminado o percurso em território francês, Marlyse Meyer detém-se no caso brasileiro e analisa a "avassaladora" presença do romance-folhetim francês nos nossos jornais do século 19. Dumas, Sue, Ponson du Terrail e muitos outros foram traduzidos e publicados abundantemente, a partir de 1838.
Os escritores brasileiros obviamente não ficaram indiferentes ao gênero e realizaram tentativas que não foram em geral muito felizes. A autora destaca algumas realizações de Joana Noronha, Pedro Nolasco, Vicente Félix de Castro, Aluísio Azevedo, Luís Guimarães Júnior etc, mas ressalta que o melhor imitador do romance-folhetim francês foi o escritor e jornalista pernambucano Carneiro Vilela, autor, entre outras obras, de "A Emparedada da Rua Nova", história de seduções, desonras e vinganças.
O impacto do romance-folhetim no meio literário e social brasileiro foi enorme. Marlyse Meyer localiza-o não apenas nas tentativas de imitação, mas também no aproveitamento que escritores importantes como Macedo, Alencar e Machado de Assis fizeram de algumas sugestões temáticas ou formais do gênero. Além disso, a autora tece considerações sobre a importância do romance-folhetim na formação e ampliação do público leitor no Brasil, com base em depoimentos colhidos em várias fontes, dando-nos assim um valioso capítulo da história do livro e da leitura em nosso país.
Por fim, resta salientar algumas informações surpreendentes acerca da sobrevivência do romance-folhetim em nosso século. Às vésperas da Semana de Arte Moderna de 1922, o "Correio Paulistano" começa a publicação das aventuras de Rocambole. E, no final da década, é Dumas quem alimenta o rodapé do jornal.
Simultaneamente, a editora Vecchi, criada pouco antes da guerra de 1914, especializa-se na edição dos romances-folhetim em forma de livro. Essa enorme vitalidade do gênero, porém, estava com os dias contados. Ou melhor, a sua forma escrita, que exigia o exercício da leitura. O cinema, o rádio e a televisão logo cairiam no gosto popular e aproveitariam aspectos formais e conteudísticos dos romances-folhetim, como se percebe nos filmes de aventuras dos anos 30 e 40, na radionovela dos anos 40 e 50 e na moderna telenovela brasileira.
Livro caudaloso, que por vezes se derrama pelas bordas, "Folhetim: uma História" é um belo exemplo da importância dos estudos de literatura comparada entre nós. Suas páginas revelam o esforço da pesquisa incansável e iluminam todo um passado literário que desconhecíamos ou conhecíamos muito mal.