

A malícia de Platão
JEANNE-MARIE GAGNEBIN
No ano passado, a editora Relume-Dumará inaugurou a coleção "Conexões", sob a direção de Maria Cristina Franco Ferraz. São pequenos, mas densos ensaios, que se podem levar numa viagem de fim-de-semana para ler e pensar, como explica a diretora da coleção. Ora, quem colocar na mochila o volume verde-maçã da própria Maria Cristina Franco Ferraz, "Platão - As Artimanhas do Fingimento", estará carregando, sem saber, um peso de chumbo: aquilo que a tradição filosófica, de Platão até Nietzsche, tentou excluir, combater, enfim, recalcar do reino do pensamento racional; aquilo que fundamenta o discurso filosófico enquanto gênero discursivo e científico, mas que, simultaneamente, o ameaça.
Essa hipótese de leitura, assumida po Franco Ferraz em suas análises de alguns diálogos de Platão, tem sua origem na interpretação nietzschiana da filosofia e de sua história, interpretação retomada, de várias maneiras, por Heidegger, Deleuze, Foucault ou Derrida. Mesmo sendo professor de filologia, Nietzsche nunca se orientou por uma neutralidade erudita ou sisuda; sempre exerceu um pensamento de combate, de destruição e resistência, um pensamento iconoclasta e provocador, cuja verve não se deve somente ao calor da luta, mas também assinala o quanto ele, Nietzsche -e todos depois dele-, precisava debater-se para conseguir escapar das malhas dessa metafísica que tentava "desconstruir".
A redescoberta e a releitura dos escritos dos sofistas, pensadores amaldiçoados desde Platão, inscreve-se no contexto mais amplo dessa releitura crítica da história da filosofia. Seguindo essa trilha, Maria Cristina também se apóia nas pesquisas de Jean-Pierre Vernant e Marcel Détienne (1) para realçar a estreita relação entre o nascimento da filosofia -portanto de um certo tipo de discurso, de uma noção específica de verdade e racionalidade- e a constituição da "polis" democrática, na qual a fala persuasiva e a argumentação rigorosa se tornam peças-chave do jogo político. Também segue as colocações instigantes dos recentes estudos sobre sofística, em particular os de Barbara Cassin, que lançam uma nova luz sobre a consistência dos escritos sofísticos (sobretudo os de Górgias) e, paralelamente, sobre a operação de denegação à qual, ainda segundo Cassin, foram submetidos por Platão e Aristóteles no gesto inaugural de constituição da própria filosofia.
Ora, se a filosofia, enquanto prática específica de discurso e de racionalidade (de "logos"), se define pela "exclusão" de outras práticas de fala, então a outra grande inimiga da filosofia platônica será a poesia, esta fala de origem sagrada que sustenta, ainda na época de Platão, o edifício da educação tradicional ateniense. Depois de um primeiro capítulo consagrado à sofística, à sua "condenação" clássica e à sua "reabilitação" contemporânea, Franco Ferraz se detém no combate de Platão contra os encantos da poesia (combate que não será retomado, pelo menos nestes termos, por Aristóteles). Com base nas análises decisivas de Marcel Détienne, ela mostra como Platão, ao reconhecer com toda tradição o caráter sagrado, inspirado, entusiástico (de "en-theos") da fala poética, pode, ao mesmo tempo, negar-lhe qualquer valor de "technè" e, mais grave ainda, de "epistème", de saber racional fundado na faculdade suprema de intelecção da alma, no "nous".
Essa estratégia irônica de desvalorização da poesia, mediante sua recondução à sua fonte divina, sustenta toda a trama do pequeno diálogo "Íon", analisado aqui com muita precisão e sutileza. Maria Cristina expõe como Platão (Sócrates) ignora sistematicamente, nesse diálogo, a questão essencial da poesia -da literatura-, a saber, a materialidade, a espessura, a autonomia da linguagem enquanto tal, em proveito de um exame exclusivo dos assim chamados "conteúdos". Essa dicotomia entre "conteúdo" e "forma" assombra até hoje nossa apreensão da poesia, da literatura e mesmo, talvez contra sua própria autocompreensão, da filosofia. Mas Platão sabia muito bem que o problema da força da poesia não podia se resolver por uma crítica de seus "conteúdos"; maliciosamente, a autora aponta aqui as artimanhas e os fingimentos da argumentação platônica.
As críticas de Platão tanto à sofística quanto à poesia se reúnem, então, na crítica contundente à "mimesis", essa faculdade de imitação, ou melhor, de representação, que está na raiz das práticas artísticas e que também explica -pois é disso que fundamentalmente se trata- por que os homens se encantam com "ilusões" em vez de se ater à "verdade". Assim, o último capítulo do livro analisa essa "potência cosmética da mimesis", essa força plástica e criadora que Platão, notadamente nas famosas páginas da "República", tenta rebaixar a um mero empreendimento de engodo, à produção da confusão entre cópia e paradigma.
Neste instigante ensaio, gostaria de apontar uma ausência: a do diálogo "Fedro", hino da maturidade de Platão aos discursos justos e, simultaneamente, aos retos amores. Não menciono a falta por exigência de exaustividade, mas porque o "Fedro" talvez seja o melhor exemplo das dificuldades que a filosofia platônica (e, talvez, toda filosofia) enfrenta para conseguir excluir de seu próprio discurso as artimanhas da sofística e da retórica, o entusiasmo e a beleza da poesia. Diálogo encantador e inspirado, o "Fedro" testemunha a luta de Platão contra a persuasão retórica e a beleza poética e, às avessas, seu fascínio por elas.
Assim como Nietzsche tem que travar um duro combate para escapar às dicotomias da metafísica, por ele denunciadas, também Platão manifesta por toda sua escrita, argumentativa sem dúvida, mas também apaixonada, sedutora, ousada e, às vezes, mesmo "sofística", o quanto a rígida separação entre a força da razão e o poder da beleza é dificilmente sustentável. Uma ressalva ao estimulante ensaio de Maria Cristina Franco Ferraz consistiria, então, em lhe perguntar se, no seu afã de defender os belos jogos discursivos que a filosofia nascente quis excluir, mas que continuam a nos encantar apesar dos filósofos, ela não se tornou, às vezes, refém das intenções declaradas, boas ou más, da argumentação platônica, nem sempre conseguindo se livrar das armadilhas montadas pelo platonismo e pela historiografia tradicional da filosofia -armadilhas poderosas que constituem e, simultaneamente, limitam o pensamento hoje.
Platão - As Artimanhas do Fingimento
Maria Cristina Franco Ferraz
Relume-Dumará (Tel. 0/xx/21/564-6869)
92 págs., R$ 15,00
Nota:
1. Em particular no livro "Les Maîtres de Vérité dans la Grèce Archaïque", Paris, 1990.
Jeanne-Marie Gagnebin é professora de filosofia na Pontifícia Universidade Católica (SP), na Universidade Estadual de Campinas e autora de "Sete Aulas sobre Linguagem, Memória e História" (Imago).