

A lucidez de Blanchot
ELIANE ROBERT MORAES
Para quem afirmava que escrever era, antes de mais nada, "um jogo insensato", a experiência da escrita deve ter sido um constante desafio do pensamento. Por certo, Maurice Blanchot não se furtou a ele: praticou várias modalidades desse jogo, escrevendo romances, ensaios filosóficos, crítica e teoria literária, todos movidos por uma fecunda interrogação acerca do estatuto da palavra e da própria reflexão que a produz. Os textos reunidos sob o título "A Parte do Fogo" oferecem ao leitor brasileiro um testemunho da inquietação que marcou sua trajetória intelectual.
Uma trajetória, aliás, cuja coerência só pode ser aferida sob o signo dessa mesma inquietação, que impôs ao autor sucessivos deslocamentos, não só no plano da escrita, mas também no do pensamento. Entre 1930 e 1940, Blanchot foi uma figura ativa do jornalismo de extrema-direita, atuando como redator de política internacional em diversos órgãos da imprensa francesa. Com a guerra, interrompeu suas intervenções políticas para iniciar a carreira literária, estreando em 1941 com "Thomas, o Obscuro", que lhe rendeu imediato reconhecimento da crítica. Em paralelo à criação de sua obra ficcional, reunindo mais de dez títulos, Blanchot passou a dedicar-se à reflexão sobre a literatura, escrevendo outra dezena de livros que o tornaram conhecido como um dos mais notáveis críticos da contemporaneidade. A tomada de partido pela literatura não autoriza, contudo, a se denunciar um "intimismo à sombra do poder": embora mais discreto, e na direção oposta à que orientava seus textos da década de 30, ele continuou a escrever sobre temas políticos, tendo atuado como um dos principais incitadores ao direito à desobediência durante a guerra da Argélia.
No interior dessa trajetória nem sempre sensata, "A Parte do Fogo", lançado em 1949, ocupa um lugar particular. Além de apresentarem as primeiras reflexões de Blanchot sobre alguns de seus autores prediletos -Kafka, Mallarmé, Baudelaire, Lautréamont, Holderlin, Valéry e Nietzsche-, esses ensaios encerram as questões centrais de sua obra. Ou, melhor dizendo, introduzem a problemática em torno da qual gravitou a vida intelectual de Blanchot, e que pode ser sintetizada no título de um dos melhores textos do volume: "A Literatura e o Direito à Morte".
Blanchot parte de um lugar-comum dos estudos linguísticos: se é a ausência que constitui a linguagem, toda nomeação expressa uma falta. Contudo, ao investigar tal tópica, extrai dela graves consequências filosóficas: a linguagem representa um recuo inevitável diante da existência e, por essa razão, o que ela enuncia é sempre uma negação do ser. "Eu me nomeio, e é como se eu pronunciasse meu canto fúnebre: eu me separo de mim mesmo, não sou mais a minha presença nem minha realidade, mas uma presença objetiva, impessoal, a do meu nome, que me ultrapassa e cuja imobilidade petrificada faz para mim exatamente o efeito de uma lápide, pesando sobre o vazio" -diz ele, atentando para a despossessão que subjaz a todo enunciado.
Alheia ao efeito de desrealização que repousa no horizonte da linguagem, a fala cotidiana toma palavras e coisas como equivalentes absolutos, acreditando que a simples evocação do nome possa restituir a presença plena do ser. A literatura, porém, caminha no sentido inverso: não só ela encontra sua própria razão de ser nessa desrealização, como reivindica tal "direito à morte" para poder existir plenamente. Daí sua inquietude, sua instabilidade, mas também seu poder e sua liberdade. Daí, sobretudo, sua insensatez.
A OBRA A Parte do Fogo Maurice Blanchot Tradução: Ana Maria Scherer Rocco (Tel. 021/507-2000) 330 págs., R$ 32,50 |
A essência da atividade literária, diz Blanchot, reside precisamente no esforço trágico de convocar o ausente na condição de ausente, para tornar real sua presença fora dele mesmo e do mundo -ou seja, para presentificá-lo em sua realidade de linguagem. Tarefa estranha e incômoda, continua ele, na medida em que "a palavra é essa vida que carrega a morte e nela se mantém". Eis, para Blanchot, o paradoxo que define a experiência literária: trata-se da "teimosia de um saber desvairado" que insiste na sua irrealidade, tal qual uma sombra declinada sobre si mesma -e que persiste como um fluxo sem origem, tal qual um eco condenado à repetição infinita.
Entende-se por que um dos temas privilegiados de "A Parte do Fogo" seja o da impossibilidade da morte. O desespero dos personagens de Kafka, segundo Blanchot, advém da tomada de consciência de uma verdade ainda mais cruel que a morte: a de que o tormento do homem sobrevive ao seu próprio fim. A desgraça de Gregor Samsa consiste na maldição de continuar existindo, assim como a execução de Joseph K. não extingue por completo a vergonha de sua existência; da mesma forma, a morte não suprime a autoridade do imperador de "A Muralha da China", nem a do velho comandante da "Colônia Penal" que se eterniza na máquina de tortura. Em suma: a morte é produtiva, e cabe à literatura dar o testemunho de seu incessante trabalho.
Cada qual à sua maneira, os autores sobre os quais Blanchot discorre estiveram todos implicados nesse mesmo absurdo. A exemplo de Kafka, também eles se atribuíram tarefas inconciliáveis, fazendo seu o domínio do equívoco, do ambíguo, do impossível. No limite, esses autores tão diferentes entre si perseguem um mesmo "impossível vivo" -expressão de René Char que, para Blanchot, resume o movimento sem fim dessa "negação produtiva" própria da aventura literária.
Não devemos estranhar, portanto, que tal ambiguidade marque a escrita e o pensamento do próprio escritor, atraídos também "para um ponto instável em que podem mudar, indiferentemente, de sentido e de sinal". Se Blanchot prefere a força expressiva à precisão conceitual, é por acreditar que não existem demarcações seguras entre a ficção e a crítica, ambas determinadas pela mesma prática da ausência que constitui o ser da linguagem. Por isso, talvez mais que uma interrogação da palavra sobre si mesma, o desafio que o autor de "A Parte do Fogo" impõe ao pensamento é uma prova limite, à altura da morte. Prova esta que Georges Poulet sintetizou com justeza, ao afirmar que a obra de Blanchot inverte o "cogito" cartesiano para propor, com insensata lucidez, um "penso, logo não existo".
Eliane Robert Moraes é professora de estética e literatura na Pontifícia Universidade Católica (SP) e autora de "Sade - A Felicidade Libertina" (Imago), entre outros livros.