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Victor Knoll - 75 - Junho de 2001
A janela da alma
Foto do(a) autor(a) Victor Knoll

A janela da alma

Os Escritos de Leonardo da Vinci Sobre a Arte da Pintura
Organização, tradução e comentários de Eduardo Carreira
Editora UnB/Imprensa Oficial (Tel. 0/xx/61/226-6874)
234 págs., R$ 25,00


VICTOR KNOLL

O herdeiro da maior parte da atividade literária de Leonardo da Vinci foi o seu discípulo Francesco Melzi, que, por volta de 1550, procurou ordenar as cerca de 13 mil páginas deixadas pelo mestre. Desse empreendimento resultou o "Trattato della Pittura" -uma seleção das passagens dispersas nos vários cadernos, que poderiam ser editadas segundo o nexo discursivo de um tratado específico. Os cadernos permaneceram sob a guarda de Melzi até a sua morte. Seus parentes, sobretudo o filho Orazio, que entraram na posse dos manuscritos, permitiram sua dispersão. Foram vendidos ou dados para colecionadores, eruditos e gente da nobreza. Dessa circunstância resultou a reunião dos manuscritos de Leonardo em várias coleções na Itália, Inglaterra, França e Espanha.
Se os cadernos conservados por Melzi misturavam assuntos os mais díspares, a sua dispersão só contribuiu para tornar mais difícil a ordenação do pensamento de Leonardo, seja sobre as artes visuais, seja sobre a anatomia, seja sobre os engenhos que projetava. Anotações relativas à perspectiva, bem como à luz e sombra, eram entremeadas com recados, lembretes ou contas de economia doméstica. Assim, em uma mesma folha se misturavam comentários mundanos e teóricos, além de desenhos ilustrativos de observações científicas. E há ainda passagens herméticas ou que se prestam a múltiplas interpretações, uma vez que não nos dão conta do destino do texto ou do sentido das imagens.
Somente na segunda metade do século 19 foi feito um efetivo levantamento dos manuscritos de Leonardo e deu-se então um trabalho que se aproximou do que podemos chamar de edição crítica. Mas só em 1939, com a publicação integral dos manuscritos disponíveis, levada a termo por Jean Paul Richter, tornou-se possível a posse de uma visão abrangente da obra literária de Leonardo, corrigindo em parte a compilação feita por Melzi e que durante quase quatro séculos serviu de referência para o estudo do pensamento vinciano. Conforme observa Eduardo Carreira, "apesar de suas intenções, é inegável o fato de que a escolha de artigos realizada por Melzi tenha graves inconvenientes, sendo, por sua vez, incompleta (não incorpora, por exemplo, as notas técnicas, sobre perspectiva ou sobre luz e sombra), desorganizada (sua sequência não é coerente) e excessivamente reiterativa (repetição de fragmentos, redundância de argumentos), contribuindo para estabelecer confusão ao justapor textos díspares tanto quanto a assuntos como a épocas em que foram feitos".
Nessa primeira tentativa de estabelecer um "Trattato", Melzi se ateve aos textos relativos à pintura, mas o conjunto dos manuscritos poderia dar origem, ao menos, a tratados sobre anatomia, hidráulica, cavalos e arquitetura. Com a dispersão dos cadernos houve o desaparecimento de muitas passagens, o que torna problemático esperar a edição daqueles tratados.
A edição dos manuscritos de Leonardo que temos em mãos optou por apresentá-los como aparecem nas diversas coleções, segundo "sua ordem arquivística e não uma ordem temática, cronológica ou hierárquica". Assim, o material dos cadernos é apresentado em estado bruto e fica por conta do leitor a decisão de juntar as partes de um determinado tema, tendo em vista obter um discurso articulado. "Lendo-o de trás para a frente, de frente para trás, abrindo-o ao meio, ou como queira, o leitor interessado em conhecer o mundo artístico de Leonardo da Vinci encontrará aqui boas pistas."
Embora a seleção dos escritos esteja voltada para a pintura -para citar alguns exemplos: a perspectiva, o uso da sombra, o preparo de uma tábua para pintar, a representação das dobras nos panos-, encontramos ainda fragmentos que tratam da anatomia dos tendões da mão e do rosto, da plumagem dos pássaros, do arco-íris, do funcionamento do olho, das árvores. Embora sejam assuntos que não estejam ligados diretamente à teoria da pintura, o seu conhecimento é necessário para a arte do pintor. Pois, como observa Leonardo, é preciso conhecer os ossos para bem pintar o corpo.
Encontramos um sabor especial nas passagens que tratam da já clássica relação entre a pintura e a poesia. Por reconhecer que o olho é um órgão sensorial mais aprimorado do que o ouvido, Leonardo atribui maior dignidade, entre as artes, à pintura. Enquanto a pintura se destina à visão, a poesia está comprometida com a audição. A visão é tida como mais apta para o conhecimento do que a audição. Tal observação é central na argumentação de Leonardo para afirmar a primazia da pintura em relação à poesia. Essa passagem de um fragmento ilustra a postura vinciana diante da disputa entre o pintor e o poeta:
"A pintura apresenta, instantaneamente, a essência de seu objeto por intermédio da faculdade visual: meio pelo qual a sensibilidade recebe os objetos naturais, constituindo, ao mesmo tempo, a harmônica proporção das partes que compõem o todo, para contento do olho. A poesia narra o mesmo assunto por meio de um sentido menos digno que a vista, o qual transmite à sensibilidade a representação das coisas que são nomeadas com maior confusão e demora que o olho, que, verdadeiro mediador entre o objeto e a sensibilidade, comunica com rapidez e verdade máximas as superfícies e figuras que se lhes apresentam".
O esforço de Leonardo em situar a pintura em um patamar superior ao da poesia consiste também em desvencilhá-la de seu lado artesanal e manual e evidenciar que o ato de pintar é, antes de tudo, mental. Como observa Gombrich, "a ambição de homens como Leonardo consistia em mostrar que a pintura era uma Arte Liberal e que o trabalho manual envolvido nela não era nem mais nem menos essencial do que o trabalho de escrita na poesia".
Por outro lado, o olho -não o ouvido- é tido como a "ventana dell'anima". Já em Alberti há a insinuação de que a pintura, entre as artes, é aquela dotada de maior dignidade. Decididamente o interesse de Leonardo estava voltado para as artes visuais e para o projeto de engenhos -talvez, por isso mesmo, nunca pensou em editar e publicar os seus manuscritos. A força desse interesse, entretanto, o levou a cometer alguns disparates -em nome de um suposto humor-, como este: "Se o poeta Petrarca amava tanto os louros é porque estes são bons para as salsichas". Goethe, talvez, nada tivesse a opor.


Victor Knoll é professor de estética na USP.

Victor Knoll é professor do departamento de filosofia da USP.
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