

O crítico de teatro Sábato Magaldi escreve sobre a obra de Flávio Império
A invenção do cenógrafo
SÁBATO MAGALDI
De qualquer ponto de vista, é muito bom o livro dedicado a Flávio Império, que Renina Katz e Amélia Hamburguer organizaram. Louve-se a abrangência dos ensaios, tratando de sua participação no teatro e nas artes plásticas. Editaram-se, a cargo de Maria Theresa Vargas, depoimentos por ele dados, bem como foram transcritos textos constantes de catálogos. Enriquecem o volume fichas técnicas de espetáculos teatrais e notas biográficas, acompanhando a trajetória de um artista morto poucos meses antes de completar 50 anos (1935-1985). E a parte iconográfica, de rara beleza, imbrica-se profundamente nas análises.
O cenógrafo
A crítica Mariângela Alves de Lima incumbiu-se de escrever o capítulo "Flávio Império e a Cenografia do Teatro Brasileiro". Com a autoridade de quem já havia organizado "Imagens do Teatro Paulista" (Imprensa Oficial/Centro Cultural São Paulo, 1985), ela segue, minuciosamente, a trajetória do cenógrafo, figurinista e diretor, caracterizando cada momento de sua evolução.
Antes, ele traça o panorama do nosso espetáculo a partir da variedade estilística do Teatro Brasileiro de Comédia, comandada pelos cenógrafos italianos Aldo Calvo, Túlio Costa, Bassano Vaccarini e Gianni Ratto. Flávio colabora no amadorismo e inicia-se profissionalmente em 1959, com "Gente Como a Gente", de Roberto Freire, no Teatro de Arena, e "trabalha com projetos artísticos que contemplam a redenção social da platéia, além das sua eventual redenção estética e espiritual".
Observa a ensaísta que é difícil saber "até que ponto a influência da teoria brechtiana contribuiu para que Flávio Império se decidisse por um tratamento não ilusionista da arena", mas já na Comunidade de Trabalho Cristão Operário optara "por soluções nitidamente simbólicas". Então estudante de arquitetura, "elege o chão como elemento primordial para sustentar a concepção cenográfica". Distante da escola do telão pintado, Flávio, como arquiteto, "faz confluir para a criação cênica um procedimento que considera todo o edifício como linguagem, desde a sua face externa até a área destinada à representação". E daí -poderíamos acrescentar- a intervenção permanente de Flávio no espaço cênico tanto do Arena como posteriormente do Oficina, em sucessivas montagens.
Mariângela atribui ao desejo de aprendizagem mais sistemática da história da cenografia, entre 1961 e 1963, visando ao domínio das convenções, os projetos para "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams, e "Todo Anjo é Terrível", de Ketti Frings (adaptação do romance "Look Homeward Angel", de Thomas Wolfe), realizados no Teatro Oficina. Dessa forma, "são cenografias em que a assinatura é menos evidente, e o cenógrafo observa a subordinação da visualidade às exigências do texto e da direção". A verdade é que o artista foi tão feliz que, ao entrar na sala, no primeiro espetáculo, o público era completamente mergulhado na atmosfera williamsiana, como em nenhuma outra encenação de sua obra até hoje feita no país.
"Andorra", de Max Frish, e "Ópera de Três Vinténs", de Brecht (1964), são trabalhos nitidamente brechtianos, no dizer de Mariângela. Acredita ela que, por meio da iconografia do Berliner Ensemble, cria-se um interesse pelos procedimentos do construtivismo.
Depoimento do artista sugere a utilização do método indutivo, pelo qual "a cenografia deixa de ser subordinada ao texto ou à direção". E atinge "uma participação autoral que não é mais a hierarquia implícita no projeto artístico do Teatro Brasileiro de Comédia". Entretanto, ainda em 1964, Flávio participa de "Depois da Queda", de Arthur Miller, talvez "a sua última cenografia conceitualmente subordinada ao texto". Os diversos praticáveis, "elementos geométricos superpostos, que adquiriam relevo cênico através da interferência da luz", importavam numa "solução abstrata (...) adequada para expressar a consciência do protagonista que é, na peça, o lugar da ação". Remontando a Appia essa proposta, como lembra com justeza a ensaísta, Flávio contribuiu extraordinariamente para o êxito do espetáculo.
Objetiva no raciocínio, Mariângela observa que Flávio não atuou sozinho "e foi, sob muitos aspectos, devedor das realizações que o antecederam e em sintonia com o que se fazia ao seu redor". Ele atendeu aos grupos ideológicos e também ao "modo de produção das grandes companhias. O fato de nunca ter-se filiado a um único grupo atestava seu interesse pela pluralidade dessa época de grandes transformações".
Como se sabe, as consequências do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, foram desastrosas, acabando por levar ao exílio Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa, então líderes do Arena e do Oficina. Para os dois conjuntos, Flávio ainda havia participado das montagens, entre outras, de "Arena Conta Zumbi" e "Arena Conta Tiradentes", de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e "Os Inimigos", de Górki, e "Don Juan", de Molière.
Em depoimento concedido à Equipe Técnica de Pesquisa de Artes Cênicas do antigo Departamento de Informação e Documentação Artística, da Secretaria Municipal de Cultura, em 1983, Flávio declarou: "Com o Living Theater, Fauzi Arap e Maria Bethânia, eu mergulhei fundo numa metafísica individual que resultou em muitas pinturas e poucos espetáculos teatrais". Mariângela registra, com razão, que "metafísica e individualidade soariam, sem dúvida alguma, como termos estranhíssimos no panorama cultural" dos anos 60. Mas, a partir da década de 70, coibido o engajamento político anterior, muitos buscaram no misticismo uma compensação para o mundo real insatisfatório.
À visualidade de "Pano de Boca" e "Um Ponto de Luz", de Fauzi Arap, Flávio juntou a cenografia e a indumentária de dez espetáculos-shows musicais, com ele criando, no dizer de Mariângela, "um novo padrão para o musical brasileiro". E vieram ainda três realizações para o Teatro Popular do Sesi, sob a orientação de Osmar Rodrigues Cruz: "Noel Rosa: O Poeta da Vila e seus Amores", de Plínio Marcos; "A Falecida", de Nelson Rodrigues; e "Chiquinha Gonzaga - Ó Abre Alas", de Maria Adelaide Amaral, todas de esbanjadora inventividade. Em seu trabalho modelar sobre a obra de um cenógrafo, Mariângela Alves de Lima pôde concluir que Flávio Império não propôs "uma predominância do aparato cenográfico sobre os outros elementos do espetáculo. Para tudo o que fez havia um sentido dramático, e é essa a grande diferença entre a sua postura e o teatro eminentemente visual que predomina na cena contemporânea".
Flávio desenhista
Para o pessoal de teatro, seria suficiente essa imagem do artista oferecida pelo livro. Outro ensaio, porém, "Flávio Império, Pintor e Artista Plástico", de autoria de Maria Bonomi, que é também cenógrafa e artista plástica -o que valoriza sobremaneira seu testemunho-, enaltece uma contribuição que bastaria para consagrá-lo, independentemente da aventura do palco (e o volume não trata do arquiteto). Alguns juízos são categóricos: "Não é absurdo dizer que aos 20 anos domina a pintura, mesmo com poucas incursões"; e ""O Retrato de Amélia", a grafite, datado de 1956, antecipa um dos desenhistas mais completos e envolventes do qual teremos notícia em nosso país". Bonomi identifica nele "a comoção de um Michelangelo, a exuberância de Leonardo ou Goya, a exatidão de Escher e a safadeza anedótica de um Guido Crepex ou Egon Schiele".
Ressalta a ensaísta que Flávio se afirmou à margem de qualquer moda estética importada que logo vingou em nosso solo. Por isso, desfila uma porção de negativas, conseguindo ele não ser abstrato nem figurativo, nem concreto nem conceitual, ou adepto de qualquer rótulo. Em síntese, Flávio foi "autônomo e original", não subjugado pelos "mass media".
Maria Bonomi examina cada obra que ilustra fartamente o volume com o olhar íntimo de colega do mesmo ofício. Não lhe é difícil, assim, definir: "Seu operar contém tantos outros que eventualmente indicou todos os caminhos mais apaixonantes do desenvolvimento clássico nacional". Para ele, a obra/ vida de Flávio Império "não contém intervalos, nem vazios, nem distâncias entre uma coisa e outra, mas se desenrola apenas espacejada por um ritmo respiratório, pois tudo acontece profundamente veiculado pelo que já havia antes, favorecendo o que surge depois". Resultando tudo numa "obra aberta no mais completo e rigoroso sentido da palavra". Acredita ela que Flávio foi "o primeiro e único artista multimídia ao Brasil".
Um exemplo artístico a ser seguido -eis o veredicto final de Maria Bonomi: "A "ordem técnica" jamais sobrepujou a ordem humana dentro da múltipla obra que (Flávio Império) nos legou. Há um claro empenho seminal em suas numerosas propostas. Resta-nos aproveitá-las. Antes que seja tarde".
Nesse clima de louvação, não será sem propósito citar o mestre Gianni Ratto, um dos fundadores do Piccolo Teatro de Milão, ao lado de Giorgio Strehler e Paolo Grassi, hoje felizmente incorporado ao palco brasileiro. Em seu recente "Antitratado de Cenografia" (leia resenha ao lado), dedicado à presença de Tomás Santa Rosa (criador do cenário original de "Vestido de Noiva", em 1943) e Flávio Império, ele escreve: "É inevitável, observando panoramicamente a obra de Flávio, pensarmos nos grandes artífices da Renascença -homens-artistas-artesãos que dominavam um leque de atividades complexas, cuja dimensão era a resultante de um esplêndido instinto criador aliado a uma intuitiva postura crítica". Impossível maior elogio.
Flávio Império Renina Katz e Amélia Hamburguer (orgs.) Edusp (tel. 0/xx/11/818-4149) 276 págs., R$ 65,00
Sábato Magaldi é ensaísta e crítico teatral, autor, entre outros livros, de "Nelson Rodrigues: Dramaturgias e Encenações" e "O Texto no Teatro" (ambos pela Perspectiva).