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Hugh Lacey - 20 - Novembro de 1996
"Não faço hipóteses"
Foto da capa do livro Elementos da Filosofia de Newton
Elementos da Filosofia de Newton
Autor: Voltaire
Tradução: Maria das Graças de Souza
Editora: Edunicamp - 296 páginas
Foto do(a) autor(a) Hugh Lacey

As metodologias da ciência moderna foram criadas, formadas e consolidadas no curso de uma longa história de complexa controvérsia. Na raiz dessas controvérsias, encontram-se disputas sobre as contribuições da experiência e dos poderes criativos e racionais da mente para a obtenção de conhecimento científico.

Descartes e Newton representaram pontos de vista opostos. O livro "Elementos da Filosofia de Newton", escrito por Voltaire e publicado originalmente em 1738, teve um importante papel na consolidação da abordagem de Newton e no declínio da cartesiana. Proporciona fácil acesso às controvérsias entre newtonianos e cartesianos, no final do século 17 e início do 18, com resíduos que persistem até hoje. Também serve para nos lembrar que, para bem compreender a prática da ciência, é preciso reconhecer suas formas atuais como estágios de uma tradição histórica. A tradução clara, fluente e elegante deste livro para a língua portuguesa é, pois, muito bem-vinda.
Estranheza
Para o leitor contemporâneo, que aprendeu a ciência newtoniana em livros didáticos, o texto de Voltaire pode causar estranheza. Constitui-se de três partes: metafísica, física (quase inteiramente dedicada à teoria newtoniana da luz) e gravitação. Para Voltaire, assim como para o próprio Newton, o significado da investigação científica não pode separar-se de suas implicações nos domínios da metafísica e da teologia. A crítica teológica ao desenvolvimento que Leibniz deu às concepções cartesianas do espaço como um "plenum", e da impossibilidade do "espaço vazio", foi tão importante quanto a crítica física de que o movimento não é possível num "plenum". Ao mesmo tempo, Voltaire rejeitou todo e qualquer papel para o fundamentalismo bíblico na ciência: "Não se deve procurar na Bíblia verdades de física, e que nela devemos aprender a nos tornar melhores e não a conhecer a natureza".
Para nós, hoje, também parece estranho que Voltaire realce a teoria newtoniana da luz, em vez da mecânica, e que este livro não contenha equações matemáticas expressas de forma algébrica, nem referência ao cálculo diferencial e integral, nem menção explícita às três leis newtonianas do movimento. Não é este o Newton que encontramos nos atuais livros didáticos. É um Newton que participou de controvérsias que tiveram que ser resolvidas antes que tais livros didáticos pudessem ser escritos.
O famoso e notoriamente obscuro slogan anticartesiano de Newton, "Não faço hipóteses", predomina nas partes 2 e 3 do livro. A interpretação feita por Voltaire desperta interesse.
A metodologia de Descartes baseava-se em princípios fundamentais que supostamente eram conhecidos pela simples atividade da mente, como o princípio de que não há espaço vazio. Exigia-se, também, o uso de "hipóteses", de livres criações da mente, cujo papel consistia em fazer uma mediação entre os princípios fundamentais e os fenômenos, ou dados empíricos, a fim de produzir explicações causais. A mais famosa hipótese de Descartes é a dos vórtices (turbilhões) no "plenum", cujos movimentos complexos e espiralados supostamente davam conta dos movimentos dos planetas e de outros fenômenos gravitacionais.
Em contrapartida, Newton não fazia hipóteses. Para ele, todos os princípios assentam, de acordo com Voltaire, em evidências empíricas: dados observados, medidas realizadas com instrumentos e experimentos reproduzíveis. A gravidade é central à história. O importante, para Newton, é que a força de gravidade possa ser quantificada e relacionada, em equações exatas, com outras quantidades como as massas dos objetos mutuamente atraídos e a distância entre eles. Tudo isso pode ser estabelecido com base em seus métodos empíricos, mas estes não proporcionam acesso às causas da gravitação.
Assim, Newton, em sua ciência, contenta-se em afirmar o "fato" da atração gravitacional, tal como expresso na equação entre quantidades, pondo de lado a questão de como a atração a atração poderia ser causalmente explicada. Para os cartesianos, ao contrário, apreender as causas era o objetivo da investigação científica. Tendo em vista esse fim, eles faziam hipóteses; ao passo que, para Newton, "o homem não é feito para conhecer a natureza íntima das coisas, que ele pode tão-somente calcular, medir, pesar e experimentar".
Medição precisa
Segundo Voltaire, a vantagem da abordagem de Newton é a coerência sistemática e o crescente campo de aplicação da teoria, em combinação com a precisão na predição e cálculo das quantidades dos fenômenos. Com as hipóteses cartesianas, obtemos um "cálculo no qual nos contentamos com um mais-ou-menos". A abordagem de Newton, ao contrário, permite o cálculo preciso de questões como o desvio das elipses (as "desigualdades") dos movimentos planetários e as distâncias das estrelas em relação à Terra. Isso permite a quantificação do mundo em detalhe. As hipóteses devem ser rejeitadas tão-somente porque suas implicações não fazem qualquer diferença no nível da medição precisa; ademais, a hipótese dos vórtices contradiz as leis newtonianas da mecânica.
Tanto Descartes quanto Newton tencionavam retratar o mundo material como sendo quantitativo, completamente matemático ou geométrico. Mas, para Voltaire, só Newton logrou êxito. 

Hugh Lacey Hugh Lacey é filósofo da ciência, australiano de nascimento, e trabalha no Swarthmore College, na Pensilvânia.
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